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30 de ago. de 2018
29 de abr. de 2017
SONETO
Sob a luz da Lua-necessidade
Do verso interior, rio caudaloso
Canta o cantador-serenidade
Fruto do escuro silencioso,
Que invade a beleza da solidão
Vivida sem vida, que convida
As batidas livres do coração
E o poeta-trôpego das letras, á lida.
Com a Lua, senhora-moça na rua
Na rede da quase real imagem
Na varanda da ilusão sonhadora.
Ecoa seu canto-cisne e destrua
Nosso sonho-dor em rica plumagem
Quebrando a secreta caixa de Pandora.
Sérgio Souza
18 de jan. de 2017
18 de jul. de 2016
E é? E não é?
Sérgio Souza
“Noves fora
são quase nada, era de vidro o anel, dei meia volta na ciranda, volta e meia
quero dar”, virou a esquina o cantador a cantar este refrão, assim mesmo,
redundante, cheio de lugares comuns, de frases feitas, afinal, a vida é um
lugar comum.
Comum
como ele que seguia com sua violinha de corda quebrada, com as vestes que a
providência lhe dera; ia como quem nunca chegou, mas também nunca partira,
sempre estivera ali, na esquina, uma confluência da avenida do passado com a
rua do futuro, o presente passou ao largo.
Passaram
muitos invisíveis por ele, iam de gravatas e maletas e chapéus, passaram sem
notar a presença do ontem, sem notar que por ali passava no garbo de frangalhos
um coração que batia os pés no mesmo compasso. Era um alguém que ficou um passo
atrás na vida, mas que andava uma batida á frente de quem nunca saiu do lugar,
como os passantes que passavam sem sair do lugar, ele ia; cantando o encanto do
desencanto dele e todos nós, ia, simplesmente ia, girando sua ciranda que não
fora Lia de Itamaracá quem lhe dera, mas girava dissonante na sua conta
imprecisa.
Parou na esquina outra, sentou no meio fio frio da
calçada, descansou sua viola de corda quebrada para conversar com o inaudível e
assim ficou balbuciando seu passado a limpo, como quem corrige; como quem agora
sabe o que quer ou diz, no relógio da padaria moscarenta o dia já passava do
meio mais um quarto, mas para ele o tempo é uma única verdade, é único. O que é
contar o tempo para quem perdeu a noção dele?
Um devorador de almas,
mas das almas que com ele se preocupam, como as dos passantes alheios no seu
internato pensante, o tempo só tem sentido para aquele que acordou depois do
tempo.
O quê habitava aquela mente? Uma pergunta que circundava
o ar, pergunta que inquietava a quem o observava pela lente do medo que as
pessoas sentem dos maltrapilhos, dos sarjetantes; aqueles, os bem-nascidos.
Trazia no rosto, não a marca do tempo vivido, mas o
vivido pelo tempo, rosto queimado das labaredas das fornalhas da vida,
escaldante senhor de inúmeras caldeiras, rosto de quem forjou muito ferro na
fornalha da vida, cada marca daquela, na face, era depositária da lembrança de
suas batalhas, suas discussões com Deus, com os amores e dores fatais, a quem
por si, com certeza, por muitas situações respondeu: “Não!”
As
mãos grossas de empunhar os arietes contra minaretes e campanários era exemplo
de muitas carícias em dorso duro de amante indomável, mas eram marca de quem
jamais se deixou levar pela brisa traiçoeira ou os ventos impositivos das
casacas, ou sedutoras sedas dos lençóis de alcova; hoje senhor das esquinas,
onde outrora reinara junto às rainhas nuas das horas mortas, sua aparência
septuagenária exalava sua disposição dos quarenta e poucos que carregava.
Todos
pararam quando aquela senhora, sim; uma senhora, dessas que guardam consigo os
segredos das poções mágicas, daquelas senhoras que venceram Chronus e desafiam
as ampulhetas, aproximou com o ar
cândido de quem é superior; guardaram suas respirações aqueles que observavam.
O contato foi lento, no compasso de que anda na vagareza da eternidade, puxou
de um envelhecido cachimbo, acendeu-o com a brasa da ansiedade dos
espectadores, olhou-o com fixação e num átimo, de quem puxa o ar pela última
vez, cochichou palavras que a curiosidade não decifrou. O homem esboçou um
gesto com a cabeça, enfiou a mão na sacola ensebada e retirou uma fotografia
cheia de quebraduras, que lhe denunciava o tempo, murmurou algo que só a velha
senhora soube o que foi, e duas grossas lágrimas correram por entre os sulcos
escavados em cada face pelo arado da existência.
“Apesar
de não lhe ver, sinto sua presença em minha vida, sinto sua falta todos os
dias.” A frase estampava o muro de periferia á nossa
frente, isso fez os senhores da padaria moscarenta pensar nas ausências
presentes em nossas vidas, que segredos guardavam aqueles velhos baús
ambulantes que um simples cromo amarelado faria desprender tão caudalosos rios
por seus vales faciais?
Um
senhor de casaca preta surrada tirou o chapéu como quem reverencia um féretro
que passa em seu passo lento, outro descansou o queixo sobre a palma da mão
como quem suspira na espera de um amor que não vem, o balconista lançou o pano
de louça sobre o ombro, abriu um largo sorriso e negou a cena; faltou-lhe um
detalhe para saborear a passagem, envelhecer.
Ficaram
ali o tempo eterno das caudalosas lágrimas percorrerem todos os canais, como
quem lava ou como quem queima tal lava incandescente deslizando cinzentamente e
suave pela encosta vesuviana de cada face; a plateia impaciente só faltou
irromper em aplausos, o teatro do absurdo não produziria cena mais marcante.
Um
senhor careca, desses que gostam de contar “causos”, trajando uma bermuda
marrom surrada, uma camisa regata encardida e um chinelo de modelo havaiano que
deixou lembranças, disse em tom forte e rouco que aquilo só poderia ser
armação, os dois estariam planejando algum roubo, pois no seu dizer, essa gente
só serve para isto. O incômodo foi geral.
O
destempero não atingiu a esquina oposta, ali estavam duas parcelas de uma só
somatória, noves fora quase nada, ou quase uma ciranda sem anel. Levantaram-se
do meio da sarjeta poeirenta, deixando ali suas mentiras e verdades, não sem
antes a velha senhora retirar dos seios mais um
mistério, uma carta de baralho, velha como quem a portava, era um rei de
copas, ninguém entendeu; mas abriram uma gargalha como o sol que descortina a
noite, deixaram-na cair como quem perde a coroa, ficou ali, no chão, rastejante
como um plebeu renegado, mas antes de partirem, aquelas duas flores do asfalto,
cada qual em seu roteiro; ela lhe disse claramente: isso é saudade.
Ele
retrucou: e é? Ela respondeu: e não é?
8 de dez. de 2015
Vá se foder!
Eu não gosto de dar conselhos. Muito mais que isso: eu não suporto aconselhar, dizer ao mundo fórmulas inventadas pra se atingir a felicidade, gabaritos prontos sem sujeição a erros, as dez regras para o sucesso, diarreia mental e mais uma porção de coisas que dejetam esse imenso e aquoso bolo fecal.
Definitivamente nunca fui bom com conselhos. Uma porque os conselheiros devem saber muito sobre a vida, geralmente são sábios – algumas vezes são só babacas mesmo –, outra porque em muitas situações meus conselhos não funcionam nem comigo, que gozo minhas alegrias, que amargo minhas tristezas, que sofro meus sofrimentos, que vivo minhas experiências, quem dirá com os outros. Entretanto, sempre que algum desconsolado, não sei por qual maluquice ou desespero, vem me perguntar o que fazer, eu não hesito em dizer sempre a mesma coisa: vá se foder! Digo isso pois é se fodendo que se aprende: a fodeção é a melhor escola, a melhor professora, o melhor aprendizado. A criança que se queima hesita em pôr a mão no fogo novamente; não porque seus pais lhe advertiram, mas porque sentiu a dor de se queimar que a criança pensa duas vezes antes de tocá-lo. E nós, crianças órfãs de pai, de mãe, de deuses quem sabe, estamos fodidos até o último fio de cabelo diante da tirania da vida, essa déspota brutal e sorridente, essa zombeteira insana, que ri das nossas tentativas de criar regras para a felicidade. Fodemo-nos dia após dia, e essas fodeções geralmente nos são muito proveitosas. Serve-nos muito. Só podemos nos aproximar da melhor escolha após o fato consumado, só temos a noção do erro ou do acerto depois de nos fodermos, qualquer coisa antes disso se inclinará a ser mera especulação.
Estamos repletos de queimaduras, queimaduras de primeiro, de segundo e de terceiro grau. Porque já nos fodemos muito, e temos muito ainda que nos foder, e, olha, parece loucura, mas ainda bem que é assim, ainda bem pois aprendemos.
Então, se os conselhos geralmente procuram evitar que nos fodamos, fodam-se todos eles, e você, que se escraviza em gabaritos mentirosos, também: vá se foder um pouquinho.
Gui Rodrigues
Benvindo
Um contracanto para duas vozes
Dois instantes um só momento
Vontades unidas, mãos espalmadas,
Verdades atormentadas
Na madrugada poética.
Poesias nascidas do interior de cada um
Fazendo palavras um sentir sem fim
Das imagens criadas nos confins do eu
Um canto sem contracanto
Mas de olhares distantes,
E tão perto como a Lua-senhora
Que mesmo sem perceber a hora
Ilumina as praias e ruas vazias de pessoas
Mas cheias de histórias.
A noite se foi eu fiquei
Esperando o raiar do dia
Para transformar virtualidade
Em nossa realidade.
Sérgio Souza
28 de nov. de 2015
A MARCHA FÚNEBRE
Veja! Um cadafalso lhe espera
ao final de qualquer escolha feita!
Haverá sempre uma besta fera
no fim da caminhada, à espreita!
Seu beijo sutil e mortal venera
a decepada da lâmina estreita
sobre as cabeças, e o medo gera,
como a guilhotina mais perfeita.
Cada um dos segundos que se vive
é mais um dos segundos que se morre,
há, depois da subida, o declive,
e o tempo, acelerado, sempre corre!
Mas se ninguém no mundo nos socorre,
não há também quem da vida nos prive,
pois é sempre morrendo que se vive,
e igualmente vivendo que se morre.
Gui Rodrigues
14 de set. de 2015
O pó flutuando no ar
Sigo sempre só.
Sofro e ando a pé.
Sou um grão de pó
que não sabe que o é.
Cruzo o mundo e em vida sigo,
corro lento e tenho pressa,
pressa de estar comigo,
pressa essa que não cessa.
Triste vou sem nunca ter partido.
quando penso que fui, já voltei.
Volto triste sem sequer ter ido.
Não saí daqui, só andei.
Essa pressa que não cessa
cria a grandeza minha,
pois o vento me professa,
pois o vento me caminha.
Sempre ando a pé.
Sou um grão de pó
que não sabe que o é.
Sigo, sofro e só.
Sou um grão de pó
que não sabe que o é.
Cruzo o mundo e em vida sigo,
corro lento e tenho pressa,
pressa de estar comigo,
pressa essa que não cessa.
Triste vou sem nunca ter partido.
quando penso que fui, já voltei.
Volto triste sem sequer ter ido.
Não saí daqui, só andei.
Essa pressa que não cessa
cria a grandeza minha,
pois o vento me professa,
pois o vento me caminha.
Sempre ando a pé.
Sou um grão de pó
que não sabe que o é.
Sigo, sofro e só.
Gui Rodrigues
15 de ago. de 2015
CONVITES DE DIONÍSIO
Vez ou outra me remexo,
com alguma comichão no peito.
O coração me sai do eixo
dum jeito assim meio sem jeito.
Eis que do meu leito me levanto.
Dá vontade de correr e gritar,
dá vontade de morrer e chorar,
dá vontade de sorrir e cantar,
de embrulhar-me todo num manto
tecido por poesia.
Dá-me uma triste alegria,
um tranquilo espanto,
quando em deliciosa sangria,
escuto desafinado canto.
Uma espécie de demônio que é santo
sorri desdentado um sorriso formoso.
Convida-me o bicho, em seu acalanto,
num delírio preguiçoso,
num gesto majestoso,
num fascínio poderoso,
a algum lugar além do mar,
além do céu;
além do meu próprio lar.
Eu vou, sem hesitar.
Entorpeço-me numa transbordante taça de vinho.
Uma miserável gota que escorre lentamente,
parece um poema que sai do meu coração
para a minha mente.
Sinto singular sensação:
estou com a estranha criatura,
ela está em algum lugar,
mas por mais que eu tente,
que esforços eu faça,
embriagando-me nessa taça,
tenho a impressão de estar sempre sozinho.
Não há ninguém, não há caminho.
E por que vejo a estrada,
o tudo e o nada?
Não há ninguém.
E por que escuto vozes?
De onde vêm esses musicais ferozes?
Acometem-me auto-hipnoses,
e quando vejo já estou a escrever.
Vale-me mais criar a esmo,
esperar tudo acontecer.
É que não sei escrever.
Não sei forçar, não sei impor.
Não sei ser escritor,
tampouco segurar a dor.
Deixo sempre a gota transbordar,
por isso sou transbordador.
E de todas as viagens nesse fugidio labor
parecem ter me valido mais as dores,
afinal, onde mais residem os espinhos, senão nas flores?
Furam-me de tal modo esses espinhos,
que talvez eu tenha sentido do meu próprio sangue
os sabores de todos os meus vinhos!
Pois o vermelho que me sai desses furinhos,
ah! Isso eu não aprendi segurar!
Há sangramentos que não se pode estancar,
e transbordos que nos convidam a criar!
E eu descubro, nesse devaneio sem par,
a lição que a vida me faz valer,
que viver me inspira a escrever,
e escrever me inspira a viver.
com alguma comichão no peito.
O coração me sai do eixo
dum jeito assim meio sem jeito.
Eis que do meu leito me levanto.
Dá vontade de correr e gritar,
dá vontade de morrer e chorar,
dá vontade de sorrir e cantar,
de embrulhar-me todo num manto
tecido por poesia.
Dá-me uma triste alegria,
um tranquilo espanto,
quando em deliciosa sangria,
escuto desafinado canto.
Uma espécie de demônio que é santo
sorri desdentado um sorriso formoso.
Convida-me o bicho, em seu acalanto,
num delírio preguiçoso,
num gesto majestoso,
num fascínio poderoso,
a algum lugar além do mar,
além do céu;
além do meu próprio lar.
Eu vou, sem hesitar.
Entorpeço-me numa transbordante taça de vinho.
Uma miserável gota que escorre lentamente,
parece um poema que sai do meu coração
para a minha mente.
Sinto singular sensação:
estou com a estranha criatura,
ela está em algum lugar,
mas por mais que eu tente,
que esforços eu faça,
embriagando-me nessa taça,
tenho a impressão de estar sempre sozinho.
Não há ninguém, não há caminho.
E por que vejo a estrada,
o tudo e o nada?
Não há ninguém.
E por que escuto vozes?
De onde vêm esses musicais ferozes?
Acometem-me auto-hipnoses,
e quando vejo já estou a escrever.
Vale-me mais criar a esmo,
esperar tudo acontecer.
É que não sei escrever.
Não sei forçar, não sei impor.
Não sei ser escritor,
tampouco segurar a dor.
Deixo sempre a gota transbordar,
por isso sou transbordador.
E de todas as viagens nesse fugidio labor
parecem ter me valido mais as dores,
afinal, onde mais residem os espinhos, senão nas flores?
Furam-me de tal modo esses espinhos,
que talvez eu tenha sentido do meu próprio sangue
os sabores de todos os meus vinhos!
Pois o vermelho que me sai desses furinhos,
ah! Isso eu não aprendi segurar!
Há sangramentos que não se pode estancar,
e transbordos que nos convidam a criar!
E eu descubro, nesse devaneio sem par,
a lição que a vida me faz valer,
que viver me inspira a escrever,
e escrever me inspira a viver.
GUI RODRIGUES
IMAGEM DIFUSA
Confusa, difusa
Perpétua, largada, quebrada
Pura, nefasta, nua
Na rua, cores
Suores, nua, vermelhamente
Semente, entregue, no ar
Sabor, delícia, volúpia
Desejo, perícia, ensejo,
Cama, lama, pensamento
Solidão, verde vermelho, paixão.
SÉRGIO SOUZA
Explosão, pensamento,
Imaginação, momento,
Semente que escapa da mente
E semeia no mundo sua cor.
O sangue da cabeça, da veia,
Tem no seu vermelho o grandioso verdor,
Que pula de fora para dentro,
Do centro – lugar onde mora – ,
Num tremendo estouro;
Estoura e se escora,
Grudando nas paredes da vida,
Este grande tesouro chamado arte,
E faz de uma situação qualquer
A partida e o começo,
A volta e o fim.
Assim se dá esse escarlate,
Que jorra e brota,
Que antes que morra quer que se mate,
Que quer existir, não no submundo,
Porque quer sair
Da cabeça para o mundo.
GUI RODRIGUES
6 de ago. de 2015
VIDA E MORTE CALÇAM IGUAL
O coveiro e todo o aparato funeral é, sem sombra de dúvida, feito de gente calejada. Imagine, ter de cavar, ou mesmo fabricar lustrosas sepulturas todos os dias, ser o encarregado da maquiagem, ou aqueles mesmo que estão no hospital, que têm de preparar o defunto para o despache - ainda os próprio penar de assistir ao choro desesperado dos viúvos, órfãos e todo o resto, pois “aquele sim era sujeito alegre, amado e bonito!”. Todo o santo dia gente morre às pencas, imagine, em sincronia, ao som de Rachmaninoff, toda essa gente sendo enterrada, cremada, ou por que não na Índia, despachada em pleno Ganges (nos seus barquinhos cuidadosamente preparados para arder em fogo). A parteira e todo o aparato médico é, sem sombra de dúvida, feito de gente calejada. Imagine, ter de auxiliar, ou até mesmo abrir pessoas todos os dias, ser o encarregado de dar banho, ou aqueles mesmo que estão no hospital, que têm de preparar o bebê para o quarto - ainda os próprio penar de assistir ao choro desesperado dos pais, amantes e todo o resto, pois “aquele sim é neném alegre, amado e bonito!”. Todo o santo dia gente nasce às pencas, imagine, em sincronia, ao som da 9ª de Bee, toda essa gente sendo parida, puxada, ou por que não na Índia, nascida em meio a outros montes, despachada em pleno mundo (nos seus destinos cuidadosamente preparados para arder em fogo).
SÉRGIO SOUZA
3 de ago. de 2015
POR BECOS E VIELAS
Copiar meus próprios versos. Licença
Confiro caderno. Lápis. Apontador.
Mão. Braço. Abraço. Pulso. Olho. Boca. Nariz.
Nariz? Para que nariz se não plantei canteiro
E poesia não tem cheiro
Poesia sou eu, é você inusitado no bolso como papel.
Papel que dorme dobrado de conchinha
Ouvido no canto silencioso de quem escreve
Sem sanidade, com vontade de comer coxinha
Normais que mais parece texto sem contexto
Arrumar a mesa, como quem arruma ideias
Faz compras e confere despesa, poeta
Sem cheiro de paladar, com gosto de vida completa
Calor sem ventilador, olho sem lua
Paz. Biscoito. Café. Gente nua.
Macarrão sem molho, salada crua
Você sim, você poeta que descasca maçãs
Na brisa das manhãs de lugar nenhum
Até descobrir que tem um poema querendo domar você.
Eu quero que o poema se dane, se lasque
Tome topadas
Beba tanto que fique viciado, dopado
Ele não é de verdade, é boêmio
É perplexo, não usa sexo, faz imaginar
Como vento sem ensejo, leite sem nata
O poeta não é mais. Nem menos
Que um poeta na esquina.
GUI RODRIGUES
28 de jan. de 2015
Senhora das Cruzes
Chora hoje ásias e áfricas
Como choraram ontem as américas
Choram os de pés no chão
Umidecendo o ontem e regando o amanhã.
Se tens fome, rime
Se tens fé, arribe
Se tens estrada, caminhe
Se tens coração, chore
Se tens mãos, tome
E vai em busca do porvir
Pois sua redenção
Está por vir.
Chora o ontem, como chora o hoje
Na certeza do choro do amanhã
Áfricas, ásias e américas
Seus filhos são renegados da esperança
Abandonados ainda criança
Vítimas da fome, bala e vício
Praticantes da dor por ofício.
SÉRGIO SOUZA
Chão de Letras
Na luz do dia a exposição é emoção
Sem rima a noite é poesia
Uma conversa livre, horas nuas
Passos de letras caminham na rua
Sonhos e realidades, minhas, suas
Numa avenida de cor e chuva
Suspiros de vida, encontro e prazer
Desencontros, variedades e vaidades
Um ponto de asfalto na cidade
Misto multicor de verdades e letras
Letras pavimentam o caminho
No desalinho das ideias e gestos
Chutando letras, colhendo palavras
Pintando imagens, fotografias
Trançando ideias, noites e dias
Trocando ilusões, cruzando olhares
Misturando tristezas, doando pesares
Numa exposição interna de valores
Na livraria de autores e cafés.
SÉRGIO SOUZA
15 de dez. de 2014
Recado ao Senhor da Rua das Violetas/Resposta ao Senhor da Rua Cidade de Castro

Deveria neste momento estar escrevendo um ensaio, mas prefiro deixa-lo pela metade, na espera. Caro senhor das Violetas, neste sábado chuvoso, com a vontade de escrever e ao mesmo tempo um gosto travoso de preguiça, uma televisão a papagaiar solitária, a janela aberta e uma cachorrinha sempre sorridente e solicita, parece um cenário de horror e solidão, mas não é, esgueirei-me pela estante para encontrar companhia aprazível e por lá encontrei um punhado de papéis impressos a tagarelar no seu silêncio de mensagem cifrada. Tem uma hora que o tempo acaba na sua infinitude, diz um filósofo alemão qualquer, ou silêncio é a gente mesmo demais, numa filosofia que vem de Cordisburgo.
Mas nada há de encanto nestes pensamentos, muito mais é caminhar pela chuva fina pensando no ser, no sentir e no existir, mas falta-me coragem para tanto, a friagem me faz covarde em deixar o sofá, porém de induz à coragem de pensar naquele texto que ensaio o ensaio e não escrevo.
A televisão mostra um filme água com açúcar, daqueles que se acostumou a ver nas tardes modorrentas dos sábados ou domingos, durante a semana não ouso dizer, mas algo me chama a atenção, quando o personagem central declara ser uma moeda, que foi cortada de uma chapa, cunhada e chanfrada, o valor... bem este pouco importa, já que o importante é ser moeda. Fiquei com isto aqui na cabeça, que somos como moedas, feitas, marcadas e adestradas, se me permite a comparação estapafúrdia, senhor da rua das violetas, passadas de mão em mão e com valor previamente estabelecido, valor nominal, pois que valor dá-se a uma moeda, senão o recebido, além de ser considerada troco. Uma vez baleado na guerra ele diz que a moeda agora apresenta dois furos, logo perdeu o valor.
Se por um lado isto se consuma, por outro ganhou valor histórico, mas meu caro senhor, valor histórico é mera moeda de aposentado por uma invalidez qualquer que as notas, muito mais bem vistas, de valores maiores e peso ínfimo acaba por impor à nefanda circulação.
Quanta bobagem, dirá o senhor, e eu hei de reconhecer sua veracidade. Ora! Encomoda-lo com um discurso tão insustentável como a leveza do ser.
Verdade é que parece que as tais personagens tiraram folga neste sábado de dezembro, nenhuma quer conversar comigo, a não ser para reclamar disto ou daquilo e ai fico eu a vagar minha indigência literária pelas linhas obscuras do papel, me esgueirando por entre pontos e vírgulas na insana tentativa de quer dizer.
Aliás, saber dizer é uma arte, já disse alguém em tempos idos e vividos, coisa que não chego nem perto nesta barafunda de ideias jogadas, mas uma coisa tenho a lucidez necessária para explanar, o quanto é difícil querer entender o mundo em que sobrevivemos, seja pelas pessoas em si ou seja por seus atos em "ré"; sim, não errei no duplo sentido que grafei, pois quanto mais para frente se anda, menos sinto a evolução, seremos seres no futuro como ou pior, em termos de evolução mental, que os senhores das cavernas, com a bizarra moda de um eletrônico qualquer na mão, e se me fosse, ainda, permitido imprimir uma viagem surrealista, gostaria de ver este arrogante HOMO SAPIENS SAPIENS em confronto direto com aqueles; o SAPIENS a arrulhar que chegou aos confins do universo e aquele, do alto da sua simplicidade carvérnica, olhando fundo e seguro
em seus olhos e dizendo: "eu inventei a roda".
O homem de tempos muito passado não teve está ideia de posteridade histórica, pois senão teria patenteado seu invento, e aí babau relativismo.
Perdoe este pobre homem de letras, pois afinal as palavras foram para serem ditas e as minhas não cabem dentro da boca.
Um forte abraço deste,
Senhor da rua Cidade de Castro.
SÉRGIO SOUZA
Talvez seja uma resposta tardia, que demorou para me ocorrer. É que não me aflige agora nenhum pensamento, e este é o melhor momento para se dizer alguma coisa. Já reparou naquela sensação de procura, de busca incessante por entre as profundezas de nosso interior, com o intuito de encontrar algum objeto, algo velho que nos dê uma sensação de coisa nova, ou, como diz você, meu bom senhor da rua Cidade de Castro, Donec Mei? É interessante que os maiores tesouros guardados dentro da gente estão sempre nas partes menos acessíveis, cabe-nos, portanto, revirar-nos por completo para encontrá-lo, porque temos, sem perceber, um preciosismo tão grande com nossos pertences valiosos, que acabamos por esconde-los de nós mesmos num relicário trancado que mal sabemos o endereço.
É estranho que passei hoje o dia a ver o mundo por uma janelinha estreita. Fiquei pensando em Fernando Pessoa, na verdade ele deve ter pensado em mim, porque surgiu um certo Álvaro de Campos – o senhor como homem das letras deve conhecê-lo – e me disse que precisava escrever, então pediu emprestada minha memória e teceu nela algumas lembranças. Acho que me recordo dos seus versos:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Acho que sonhar já está de bom tamanho. Que importa ser, se não houver toda a magia e o encanto do sonho, isto é, se não houver aquela espécie de natureza imaginativa que nos preenche, dando a nós, em meio aos absurdos mundanos, uma vitalidade profunda e arrebatadora, que nos fornece toda a nossa essência e cede-nos uma visão cega e atenta do que se passa do lado de fora? Os cegos me inspiram: eles veem o mundo através da sensibilidade.
Sabe, meu caro senhor, será que um poeta imagina, quando a poesia usa seu corpo como instrumento de escrita, que de alguma forma o que ele está escrevendo pode ter sentido para alguém tão distante, seja hoje ou daqui a uma porção de anos? Digo isso porque o mundo é bem estranho... Há pessoas que existem, mas para outras pessoas não existem, e quem já não existe mais existe para outra pessoa. Explico-me: imagine o senhor que neste exato momento alguém vaga pela Avenida Paulista, alguém que nunca vimos e nunca veremos. Imaginou? Então, para nós essa pessoa não existe, embora exista; nunca a vimos, não sabemos de sua existência e por isso não a reconhecemos. Agora, peço que imagine o bom Álvaro de Campos: ele não existe, ele um dia existiu em alguém que também já não existe mais, entretanto, para nós, ele existe mais do que quem verdadeiramente existe! Como o mundo é louco, não?
Quando você me fala sobre a fuga das personagens que hoje não quiseram ter com a sua inspiração, penso que às vezes são os escritores que fogem das suas personagens. Sol é um claro exemplo desse abandono por parte do escritor, que, temendo a conduta dessa mulher, procurou abster-se pelo menos por um momento da história. Mas confesso que, às vezes, escrever dá-me uma boa nostalgia das brincadeiras de infância, quando eu corria de um lado para o outro, naquela típica brincadeira simples e divertida que é o pega-pega. Talvez nos ocorre algumas vezes de não sermos tão espertos e hábeis quanto a personagem, e por isso ela nos escapa.
Neste dia chuvoso, senhor da rua Cidade de Castro, tudo está vazio, menos eu. É que aprendi a preencher o vazio de sempre com o próprio vazio. Encontro-me no vazio. O coração humano tem muito disso.
Aqui, senhor, as violetas das ruas estão belas e molhadas, lambuzaram-se inteiras de chuva e saciaram a sede; uma nuvem inteira passou por um processo imenso somente para dar de beber a essas pequeninas perfumadas.
Mas, caro senhor, estas são só palavras, carregadas de preguiça e com sentido apenas para quem tiver algo dentro de si, justamente por elas não terem nada a dizer. São só palavras mesmo. Entretanto, lembrando Clarice, nós sabemos de muita coisa, mais do que imaginamos saber, acontece que nos fazemos de sonsos.
Um forte abraço deste,
Senhor da Rua das Violetas.
GUI RODRIGUES
19 de nov. de 2014
ABRAÇO DE IRMÃO
Embrenha teus cabelos
cor de prata
Na manhã raiada de
madeixas negras
Embrenha o eco surdo
por teu sorriso cor de anil
Na manhã fria de outono
quente
Estende hoje a mão que
ontem negaste
Chora sociedade macabra
teu nefasto choro de iniquidades
Chama para dentro de si
os renegados do banquete
Diz que não existem;
que são visões, Ignora teus restos nus nas esquinas,
Renegue tuas meninas,
diz que é ilusão.
Embrenha a luz por teus
cabelos cor de prata
Na manhã raiada de
madeixas negras
E ensurdeça-se com o
eco que vem das ruas
Surdo e amordaçado dos
esquecidos,
Daqueles que não
chamaste irmão;
Que se quer passou
pelos pensamentos seus
Os mendigos das
consciências
Os renegados filhos de
Deus.
SÉRGIO SOUZA
17 de nov. de 2014
QUEM ME DERA
Quem me dera
ter o mundo inteiro
pra poder correr.
Correr sem nunca me cansar,
correr até faltar o ar,
até não sentir mais as pernas;
sentir o sol me banhar,
sair da escuridão das cavernas
e não mais me penar
em angustiante claustrofobia,
e ser para mim a minha companhia,
e ter para mim todo o mundo, todo dia,
o dia todo.
Quem me dera
correr descalço,
pelos campos,
pela areia,
pela neve,
passear leve,
pelas nuvens,
pelo céu,
por algum lugar distante
onde todos tenham asas.
Quem me dera
tornar-me viajante,
largar o peso,
estar-me ileso,
de todas as toneladas,
de todas as palavras
que, sutil e brutalmente,
foram lapidadas.
Quem me dera
despir-me da gravidade
para flutuar,
flutuar em liberdade,
pelo universo,
disperso entre as estrelas.
Abraçar a leveza
e nunca mais soltar,
viajar a lugares
onde se possa voar,
onde o infinito seja o chão,
e o chão não exista;
onde o céu seja o lar.
Quem me dera
correr somente,
esquecer, fugir, sumir,
até não sentir mais a vida.
Apenas sentir
outra vida que não existe,
mas que pode existir.
GUI RODRIGUES
5 de nov. de 2014
COMPOSIÇÃO
Beto
abre a vidraça. Ela se remexia tentando romper o trinco, pois o vento batia
forte querendo entrar. O sujeito dirigiu-se a ela, e, ao abri-la, viu-se
defronte a uma infinidade de majestosos detalhes naturais, e não consegue
evitar que seus olhos percorram a paisagem, e suas retinas pousam um tempo por
sobre os morros verdes e longínquos. Há cinza no firmamento, na verdade, ele é
todo cinza, já que uma nuvem imensa cobre tudo o que nele havia de azul.
Somente aonde as vistas não alcançam é que a tinta celeste ainda era azul.
Alguns
galhos de trepadeiras intrujonas penetram de fininho. Os ventos já haviam
invadido o quarto de Beto, e agora não mais se agitavam com furor, apenas
vagavam pelo ambiente, como se inspecionassem minuciosamente o local, querendo
tocar até as partes mais sombrias desse quarto. O homem, ainda encantado, deixa
que a brisa sopre em seu rosto, e fecha os olhos tranquilo; está melancólico,
esse senhor, mas aprazido, pois recebe o beijo divino da Mãe Natureza, que o
fascina de maneira tão vertiginosa.
Atrás
dele jazia um grande amigo, o seu único amigo: um piano velho e já usado
centenas de vezes. Quantas não foram as noites que esse parceiro deitou a
cabeça de Beto em seu colo, cantando-lhe cantigas de ninar e lhe acariciando os
cabelos, para que o pianista pudesse ter alguma tranquilidade dentro de si,
ainda que fosse por míseros e apressados momentos – mas sempre tão intensos.
Quantas vezes ele precisou fugir e o instrumento foi o único a lhe oferecer uma
porta de saída, quando nefastas e horrendas criaturas da consciência perseguiam
carnicentas e famintas esse angustiado homem...
O
companheiro musical o saúda, e lhe convida para uma viagem. Beto, com o
espírito massageado, sorri satisfeito e agradecido para o amigo, e novamente se
volta à janela, aberta para ele como o céu para outras dimensões, deixando que
o caos interior se aquietasse por alguns instantes.
Eis
que um canto se faz em seu coração. Uma voz sopra na sua alma uma música, como
se o Universo inteiro descesse quieto para cantar nos ouvidos desse homem a
composição dos céus. Parecia um chamado. Coisa difícil é conter algumas
sensações estranhas e maravilhosas que às vezes, tão de repente e fugidias,
atravessam como uma espada o espírito, rasgando qualquer angústia que nele
pudesse residir. Havia sido isso que ocorrera com Beto, não havia modos de
conter a formidável alegria que o acometeu nesse momento; ele flutuou.
Então
se volta novamente esse senhor ao piano, que o fita ainda com o convite em
valia. Uma força o impele, e automaticamente ele se vai sentando, sem ajeitar o
sobretudo que usava e aconchegando-se confortavelmente sobre o banquinho de
onde comporia a trilha sonora da viagem de sua alma.
Assim
que ele começa, a um leve toque nas teclas do piano, talvez tenha se aberto o
céu, pois um impulso o invadiu logo no primeiro tilintar. E dentro dele algo se
remexe, algo parece querer sair, se libertar de seu coração para as profundezas
daquele quarto solitário. E ele não para, segue com os dedos a tocar, dançando
leves pelas teclas do piano. "Oh solidão! Você escuta essa música? Que me
importa se escuta?! Componho para mim, é somente meu espírito que pretendo
atingir! O céu já me ouve, e isso me basta. A imensidão do firmamento é minha
mais majestosa plateia, e eu o escuto perfeitamente, ele me diz o que fazer, eu
apenas obedeço aos seus sussurros, que são os comandos do meu coração. O
pensamento é como a sereia do mar que cada ser humano carrega no peito, o mar
severo e calmo, o mar colérico e gigante, o mar de águas frias e salgadas, que
com sua imensidão oceânica esconde a sereia, mas que, mesmo com toda essa
grandeza, com toda essa infinitude, não cala o seu canto, e os navegantes
exploradores são atraídos, hipnotizados, e não raro se perdem quando deleitados
nos prazeres dessa voz interna que convida às mais profundas profundidades do
espírito humano. Escute, solidão, o cântico do meu piano, e me deixe
mergulhar-me em meu espírito na companhia da donzela dos mares, que me convida
à escuridão de águas remotas".
Aquilo
que está dentro dele quer cada vez mais sair, e à medida que Beto faz música,
essa força parece ganhar força, e tamanho, e dimensões cada vez mais
impossíveis de permanecer em seu corpo, até que, fugindo de dentro de si,
dançando no ar como uma sereia a nadar pelo oceano, rasgando levemente seu
peito, surge uma mulher flutuante, uma bela mulher flutuante. Não que fosse uma
sereia propriamente dita, sendo metade peixe metade humana, era toda humana,
inclusive, no entanto balançava seu corpo pelos ares como uma perfeita sereia,
e por isso tanto se assemelhava a essa criatura mítica.
Ela
se coloca acima do piano, e, quase toda nua, apenas com um lençol solto a
cobri-la nas partes mais baixas, abraçando desde o tornozelo ao diafragma,
deixando à mostra as mamas, divaga com prazer, como quem se deleita nos sopros
da música. Mais parecia um espectro, pois de tão pálida, branca, quase
transparente, podia-se ver, ainda que imperfeitamente, por através dela. As
linhas de sua silhueta são esfumaçadas, e desses traços um vapor se desvanecia
enquanto a mulher flutuava num delírio sereno. Parecia ser impossível senti-la
com as mãos.
Beto está com os olhos fora de
órbita. Não crê nas mentiras que as retinas podem dizer, tem medo,
paulatinamente é hipnotizado. Coça as vistas, sacode a cabeça, balançando os cabelos
ondulados; engole em seco, seu coração se acelera, e não percebe que mesmo
assustado suas mãos não cessam a melodia. A figura misteriosa abre os olhos, e
se coloca flutuante à frente do pianista. Ela o olha bem de perto, quase o
toca, seus narizes estão a menos de um milímetro um do outro, e de repente a
formosa criatura fez sorrir os seus lábios, incentivando Beto a não cessar
jamais a música. O homem, atônito, embora tranquilo, apenas fecha os olhos, e
não evita que pelo seu rosto triste escorra uma lágrima solitária, calada, que
vai despencar de sua face ao seu colo.
Então ele abaixa a cabeça,
guaia, solta o espírito, enquanto, no desempenhar da triste melodia que seus
dedos executavam, a sereia dos pensamentos dança por sobre o seu único amigo, o
piano.
GUI RODRIGUES
I
O som do piano é a alma do
pianista
Esse alquimista das notas que
faz da melodia
Seu meio dia, sua meia noite
Da vida sinfonia.
Evoluí numa mágica interna de
vontades
Numa mistura surda de
necessidades
Faz rima com o volátil
Sonetos com o tátil.
É sonho, é mistério, é ilusão
Sem corpo, é só coração
Suavidade melódica.
Ácido e suave, amor e ódio de
casaca
Luz e trevas, desejo e desprezo
atado
Composição de pé quebrado.
Eu piano nos versos
Enquanto tu pianas na prosa
E nesse pianarmos,
Lançamos sons e ecos no ar,
Numa vontade louca e
Beethoviana
Para ensurdecer o mundo,
E bailar com a Lua senhora e
vadia
Fazendo chorar a noite com
saudade do dia
Revirando madrugada sozinha na
cama
Enquanto vagueia os dedos cegos
no teclado
Ora preto, ora preto, numa
alternância frenética
Da dor e do deleite, do negar e
do sentir
No divino direito de pianar.
SÉRGIO SOUZA
EU VI O TEMPO! / EU NÃO VI O TEMPO!
Eu vi o Tempo
Sozinho na areia, era um rapaz, um menino
Com a carga definitiva do destino.
Eu vi o Tempo
Pensando parado com os olhos azuis
Perpetuados no azul das águas do mar.
Eu vi o Tempo
Com as marcas da alegria e da tristeza
Marcadas em teu corpo franzino de homem-menino.
Eu vi o Tempo
Fumando poesia, e um relógio na algibeira
Era dia, talvez noite, falando na voz do vento.
Eu vi o Tempo
Olhando o infinito finito da eternidade
Lembrando um tempo que o Tempo saudade não viveu.
Eu vi o Tempo
Passando a limpo na areia da praia
O texto verdade de cada tempo.
Eu vi o Tempo
Com todas as nossas feridas marcadas em si
Como medalhões de glória ou enlevo de sentir
profundo.
Eu vi o Tempo
Com todo o carma do mundo
Na fumaça do charuto num tragar bem fundo.
Eu vi o Tempo
De longa barba, velho como o Tempo
Novo como o iniciar dos tempos.
Eu vi o Tempo
Falando sozinho na brisa do ar
Conjugando o verbo criar.
Eu vi o Tempo
Na sombra do coqueiro da pedra
Sob as folhas do Baobá.
Eu vi o Tempo
Senhor do passado, compreendedor do passado,
Imaginador do futuro, sonhando na voz da maré.
Eu vi o Tempo
Inspiração,
negação e sentido
E lembrei do meu tempo com lança ferido.
Eu hoje vi o Tempo
Preso e livre no azul infinito do olhar
Caminhando sobre as águas das pedras do mar.
Eu vi o Tempo!
SERGIO SOUZA
Eu não vi o Tempo!
Não sei quando foi
que o passado virou presente,
mas sei que,
de alguma forma,
aquilo que já é ausente.
nunca se foi
Eu não vi o Tempo passar,
Como sempre, eu não vi o Tempo.
ele passou.
e bem diante dos meus olhos sensíveis
Passou pra ser passado.
Quantas nobres crueldades!
Oh! Como minhas barbas cresceram!
Tempo, eu dormi todo esse tempo?
Eu não vi o Tempo;
eu vi água, mar,
areia, pessoas, céu, lua, mas nada de Tempo.
Nada dá tempo,
e tudo parece estar fora do tempo...
pontos de interrogação.
É que os ponteiros apontam
Mas as questões às vezes se afirmam.
Eu dormia
quando meu Tempo chegou.
de perto do Baobá,
Ele veio de longe,
flutuando, como um menino,
sorriu-me e disse:
pelos ventos do destino;
chacoalhou-me,
"Vamos, que eu sou o Futuro,
– que não se vê, que somente se sente – me
presenteou:
e já é tempo de transformar!".
E o Tempo o Futuro, agora,
mora no meu presente.
E tudo passa.
Mas no momento
eu não enxergo nada...
GUI RODRIGUES
24 de out. de 2014
TRAJETOS E DESTINOS
Céu avermelhado, paisagem seca, mandacaru por companhia, no horizonte um pouco de esperança, no destino esta bitola natural serpenteando o quase nada, respiro fundo uma gota d´água e sigo em frente enfrentando o sol, a morte, a solidão e a vontade e no meu matulão uma vontade de chegar para morrer onde a vida existe, onde, se o perigo persiste, Deus espelhou o céu.
Ouvi falar, muito ao de leve, sobre outros companheiros por esse mundão imenso de meu Deus, amigos que correm trás-os-montes, que se enchem para dar vida aos lados ressequidos, amigos que até estão na história dos homens e de Cristo (louvado seja), amigos que nascem no estrangeiro feios e finos e viram mar em terras brasilis, falando assim e olhando para esse mundão de terra para velejar, vou me sentindo um desbravador, um conquistador, como um tal Cabral, tão Cabral como aquele que me disse sem plumas e me chamou de cão, tão andarilho como aquele Severino de tão severa vida, que morreu antes mesmo de viver, de palavras tão secas quanto às vidas gracilianas, que tão secas eram graciosas gracilianices da miséria humana, e os tais cabrais tão cabras como o cabra que era Fabiano, e minha esperança é tão vitoriosa como das sinhás do sertão.
Mas seu moço-menino é hora de parar com esse proseio todo, pois o sol não abranda e o caminho é todo um destino comprido como a saga de Antônio, o conselheiro do sertão, e meu caminho é uma enfiada tal igual um canudo de zarabatana; avisa a Rosinha, seu moço, que eu volto, quando a pedra virar lama e a secura do mandacaru virar flor, avisa lá aos fortes destas terras que uma esmola para quem é são, mata de vergonha ou vicia o cidadão, a hora é chegada, quero partir com saudade de mim, para quando lembrar do senhor, seu moço é com a lembrança de ti, vou escrevendo minha história de poço em poço, de açude em açude. Adeus seu moço, vou buscar minha vida na hora que me entregar ao misterioso, portanto ainda o enterro espere no portal que o defunto ainda respira.
Já fiz destas veredas minha eternidade, por aqui ando e perneio todos os anos fugindo da seca nas asas brancas da esperança de um dia não fugir mais disso não, voa sanhaço, voa beija-flor; corta caatinga, corta canavial, corta sisal; dança frevo; dança maracatu, olha a casa grande e a senzala, lá vem o Bacalhau do Batata; ó linda imagem que seduz, Olinda, e como uma Maria-fumaça cortando e costurando feito agulha endoidecida fazendo união, como aquele irmão da Serra da Canastra – Vou-me encontrar com ele lá no riachão, que é o fim de tudo – daqui donde estou, já avisto um horizonte esverdeado da mata da zona, o vento parece já ter frescor e o volume vai se aumentando, arrastando terra, abraçando as pedras; por entre sons e jaqueiras, crianças molhadas, mulheres lavadeiras, roupas nos varais de cordéis, vitalinos, mestres santeiros, lampiões caolhos e marias bonitas (mulheres damas), vou despencar..., lá vem usina; olhe lá, seu moço, que tanto de perna é aquele no meu caminho? Não é perna não, seu moço, é palafita é gente que mora em cima de mim, puxa o guaiamu, retira o peixe, lá vem sujeira, sai da frente, seu mestre, lá vem besteira em turbilhão molhando a esperança de um dia não esperar por mais nada não; corta rua, corta ponte, corta o holandês, corta a Rua da União, onde desfraldam bandeiras e jogam feijão queimado na casa onde dormem a tristeza e a alegria de Totônio Rodrigues.
Vejo já bem perto o azul do azul que se mistura nesta massa nem verde nem azul e é para lá que eu caminho, é lá quero me misturar com aquele irmão de nome de santo, São Chico dos Necessitados, que me traga um gosto de piqui, e lá quero rever o irmão do norte cheio de verde-mata que mata de orgulho quem vem da caatinga rala, podem chamar os carregadores que o defunto quer ir embora, avisa lá que eu vou sublimar um dia e voltarei para de novo fertilizar a as pedras com meu suor, adeus mestres carpinas, adeus coveiros de Santo Amaro e Casa Amarela, adeus Recife belo, adeus Recife triste como a casa do meu...avô.
Enterrem as minhas lembranças á sombra do umbuzeiro e escrevam na pedra da lama – Capibaribe!
SÉRGIO SOUZA
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