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18 de jul de 2016

E é? E não é?

Sérgio Souza

            “Noves fora são quase nada, era de vidro o anel, dei meia volta na ciranda, volta e meia quero dar”, virou a esquina o cantador a cantar este refrão, assim mesmo, redundante, cheio de lugares comuns, de frases feitas, afinal, a vida é um lugar comum.
Comum como ele que seguia com sua violinha de corda quebrada, com as vestes que a providência lhe dera; ia como quem nunca chegou, mas também nunca partira, sempre estivera ali, na esquina, uma confluência da avenida do passado com a rua do futuro, o presente passou ao largo.
Passaram muitos invisíveis por ele, iam de gravatas e maletas e chapéus, passaram sem notar a presença do ontem, sem notar que por ali passava no garbo de frangalhos um coração que batia os pés no mesmo compasso. Era um alguém que ficou um passo atrás na vida, mas que andava uma batida á frente de quem nunca saiu do lugar, como os passantes que passavam sem sair do lugar, ele ia; cantando o encanto do desencanto dele e todos nós, ia, simplesmente ia, girando sua ciranda que não fora Lia de Itamaracá quem lhe dera, mas girava dissonante na sua conta imprecisa.
            Parou na esquina outra, sentou no meio fio frio da calçada, descansou sua viola de corda quebrada para conversar com o inaudível e assim ficou balbuciando seu passado a limpo, como quem corrige; como quem agora sabe o que quer ou diz, no relógio da padaria moscarenta o dia já passava do meio mais um quarto, mas para ele o tempo é uma única verdade, é único. O que é contar o tempo para quem perdeu a noção dele?  
Um devorador de almas, mas das almas que com ele se preocupam, como as dos passantes alheios no seu internato pensante, o tempo só tem sentido para aquele que acordou depois do tempo.
            O quê habitava aquela mente? Uma pergunta que circundava o ar, pergunta que inquietava a quem o observava pela lente do medo que as pessoas sentem dos maltrapilhos, dos sarjetantes;  aqueles, os bem-nascidos.
            Trazia no rosto, não a marca do tempo vivido, mas o vivido pelo tempo, rosto queimado das labaredas das fornalhas da vida, escaldante senhor de inúmeras caldeiras, rosto de quem forjou muito ferro na fornalha da vida, cada marca daquela, na face, era depositária da lembrança de suas batalhas, suas discussões com Deus, com os amores e dores fatais, a quem por si, com certeza, por muitas situações respondeu: “Não!”
As mãos grossas de empunhar os arietes contra minaretes e campanários era exemplo de muitas carícias em dorso duro de amante indomável, mas eram marca de quem jamais se deixou levar pela brisa traiçoeira ou os ventos impositivos das casacas, ou sedutoras sedas dos lençóis de alcova; hoje senhor das esquinas, onde outrora reinara junto às rainhas nuas das horas mortas, sua aparência septuagenária exalava sua disposição dos quarenta e poucos que carregava.
Todos pararam quando aquela senhora, sim; uma senhora, dessas que guardam consigo os segredos das poções mágicas, daquelas senhoras que venceram Chronus e desafiam as ampulhetas,  aproximou com o ar cândido de quem é superior; guardaram suas respirações aqueles que observavam. O contato foi lento, no compasso de que anda na vagareza da eternidade, puxou de um envelhecido cachimbo, acendeu-o com a brasa da ansiedade dos espectadores, olhou-o com fixação e num átimo, de quem puxa o ar pela última vez, cochichou palavras que a curiosidade não decifrou. O homem esboçou um gesto com a cabeça, enfiou a mão na sacola ensebada e retirou uma fotografia cheia de quebraduras, que lhe denunciava o tempo, murmurou algo que só a velha senhora soube o que foi, e duas grossas lágrimas correram por entre os sulcos escavados em cada face pelo arado da existência.
  “Apesar de não lhe ver, sinto sua presença em minha vida, sinto sua falta todos os dias.” A frase estampava o muro de periferia á nossa frente, isso fez os senhores da padaria moscarenta pensar nas ausências presentes em nossas vidas, que segredos guardavam aqueles velhos baús ambulantes que um simples cromo amarelado faria desprender tão caudalosos rios por seus vales faciais?
Um senhor de casaca preta surrada tirou o chapéu como quem reverencia um féretro que passa em seu passo lento, outro descansou o queixo sobre a palma da mão como quem suspira na espera de um amor que não vem, o balconista lançou o pano de louça sobre o ombro, abriu um largo sorriso e negou a cena; faltou-lhe um detalhe para saborear a passagem, envelhecer.
Ficaram ali o tempo eterno das caudalosas lágrimas percorrerem todos os canais, como quem lava ou como quem queima tal lava incandescente deslizando cinzentamente e suave pela encosta vesuviana de cada face; a plateia impaciente só faltou irromper em aplausos, o teatro do absurdo não produziria cena mais marcante. 
Um senhor careca, desses que gostam de contar “causos”, trajando uma bermuda marrom surrada, uma camisa regata encardida e um chinelo de modelo havaiano que deixou lembranças, disse em tom forte e rouco que aquilo só poderia ser armação, os dois estariam planejando algum roubo, pois no seu dizer, essa gente só serve para isto. O incômodo foi geral.
O destempero não atingiu a esquina oposta, ali estavam duas parcelas de uma só somatória, noves fora quase nada, ou quase uma ciranda sem anel. Levantaram-se do meio da sarjeta poeirenta, deixando ali suas mentiras e verdades, não sem antes a velha senhora retirar dos seios mais um  mistério, uma carta de baralho, velha como quem a portava, era um rei de copas, ninguém entendeu; mas abriram uma gargalha como o sol que descortina a noite, deixaram-na cair como quem perde a coroa, ficou ali, no chão, rastejante como um plebeu renegado, mas antes de partirem, aquelas duas flores do asfalto, cada qual em seu roteiro; ela lhe disse claramente: isso é saudade.

Ele retrucou: e é? Ela respondeu: e não é?

8 de dez de 2015

Vá se foder!




Eu não gosto de dar conselhos. Muito mais que isso: eu não suporto aconselhar, dizer ao mundo fórmulas inventadas pra se atingir a felicidade, gabaritos prontos sem sujeição a erros, as dez regras para o sucesso, diarreia mental e mais uma porção de coisas que dejetam esse imenso e aquoso bolo fecal.

Definitivamente nunca fui bom com conselhos. Uma porque os conselheiros devem saber muito sobre a vida, geralmente são sábios – algumas vezes são só babacas mesmo –, outra porque em muitas situações meus conselhos não funcionam nem comigo, que gozo minhas alegrias, que amargo minhas tristezas, que sofro meus sofrimentos, que vivo minhas experiências, quem dirá com os outros. Entretanto, sempre que algum desconsolado, não sei por qual maluquice ou desespero, vem me perguntar o que fazer, eu não hesito em dizer sempre a mesma coisa: vá se foder! Digo isso pois é se fodendo que se aprende: a fodeção é a melhor escola, a melhor professora, o melhor aprendizado. A criança que se queima hesita em pôr a mão no fogo novamente; não porque seus pais lhe advertiram, mas porque sentiu a dor de se queimar que a criança pensa duas vezes antes de tocá-lo. E nós, crianças órfãs de pai, de mãe, de deuses quem sabe, estamos fodidos até o último fio de cabelo diante da tirania da vida, essa déspota brutal e sorridente, essa zombeteira insana, que ri das nossas tentativas de criar regras para a felicidade. Fodemo-nos dia após dia, e essas fodeções geralmente nos são muito proveitosas. Serve-nos muito. Só podemos nos aproximar da melhor escolha após o fato consumado, só temos a noção do erro ou do acerto depois de nos fodermos, qualquer coisa antes disso se inclinará a ser mera especulação.

Estamos repletos de queimaduras, queimaduras de primeiro, de segundo e de terceiro grau. Porque já nos fodemos muito, e temos muito ainda que nos foder, e, olha, parece loucura, mas ainda bem que é assim, ainda bem pois aprendemos.

Então, se os conselhos geralmente procuram evitar que nos fodamos, fodam-se todos eles, e você, que se escraviza em gabaritos mentirosos, também: vá se foder um pouquinho.


Gui Rodrigues

Benvindo


Um canto para dois corações,
Um contracanto para duas vozes
Dois instantes um só momento
Vontades unidas, mãos espalmadas,
Verdades atormentadas
Na madrugada poética.
Poesias nascidas do interior de cada um
Fazendo palavras um sentir sem fim
Das imagens criadas nos confins do eu
Um canto sem contracanto
Mas de olhares distantes,
E tão perto como a Lua-senhora
Que mesmo sem perceber a hora
Ilumina as praias e ruas vazias de pessoas
Mas cheias de histórias.

A noite se foi eu fiquei
Esperando o raiar do dia
Para transformar virtualidade
Em nossa realidade.

Sérgio Souza

28 de nov de 2015

A MARCHA FÚNEBRE




Veja! Um cadafalso lhe espera
ao final de qualquer escolha feita!
Haverá sempre uma besta fera
no fim da caminhada, à espreita!


Seu beijo sutil e mortal venera
a decepada da lâmina estreita
sobre as cabeças, e o medo gera,
como a guilhotina mais perfeita.

Cada um dos segundos que se vive
é mais um dos segundos que se morre,
há, depois da subida, o declive,
e o tempo, acelerado, sempre corre!

Mas se ninguém no mundo nos socorre,
não há também quem da vida nos prive,
pois é sempre morrendo que se vive,
e igualmente vivendo que se morre.
Gui Rodrigues

14 de set de 2015

O pó flutuando no ar



Sigo sempre só.
Sofro e ando a pé.
Sou um grão de pó
que não sabe que o é.

Cruzo o mundo e em vida sigo,
corro lento e tenho pressa,
pressa de estar comigo,
pressa essa que não cessa.

Triste vou sem nunca ter partido.
quando penso que fui, já voltei.
Volto triste sem sequer ter ido.
Não saí daqui, só andei.

Essa pressa que não cessa
cria a grandeza minha,
pois o vento me professa,
pois o vento me caminha.

Sempre ando a pé.
Sou um grão de pó
que não sabe que o é.
Sigo, sofro e só.

Gui Rodrigues

15 de ago de 2015

CONVITES DE DIONÍSIO

Vez ou outra me remexo,
com alguma comichão no peito.
O coração me sai do eixo
dum jeito assim meio sem jeito.

Eis que do meu leito me levanto.
Dá vontade de correr e gritar,
dá vontade de morrer e chorar,
dá vontade de sorrir e cantar,
de embrulhar-me todo num manto
tecido por poesia.

Dá-me uma triste alegria,
um tranquilo espanto,
quando em deliciosa sangria,
escuto desafinado canto.

Uma espécie de demônio que é santo
sorri desdentado um sorriso formoso.
Convida-me o bicho, em seu acalanto,
num delírio preguiçoso,
num gesto majestoso,
num fascínio poderoso,
a algum lugar além do mar,
além do céu;
além do meu próprio lar.

Eu vou, sem hesitar.
Entorpeço-me numa transbordante taça de vinho.
Uma miserável gota que escorre lentamente,
parece um poema que sai do meu coração
para a minha mente.
Sinto singular sensação:
estou com a estranha criatura,
ela está em algum lugar,
mas por mais que eu tente,
que esforços eu faça,
embriagando-me nessa taça,
tenho a impressão de estar sempre sozinho.

Não há ninguém, não há caminho.
E por que vejo a estrada,
o tudo e o nada?
Não há ninguém.
E por que escuto vozes?
De onde vêm esses musicais ferozes?

Acometem-me auto-hipnoses,
e quando vejo já estou a escrever.
Vale-me mais criar a esmo,
esperar tudo acontecer.

É que não sei escrever.
Não sei forçar, não sei impor.
Não sei ser escritor,
tampouco segurar a dor.
Deixo sempre a gota transbordar,
por isso sou transbordador.

E de todas as viagens nesse fugidio labor
parecem ter me valido mais as dores,
afinal, onde mais residem os espinhos, senão nas flores?

Furam-me de tal modo esses espinhos,
que talvez eu tenha sentido do meu próprio sangue
os sabores de todos os meus vinhos!

Pois o vermelho que me sai desses furinhos,
ah! Isso eu não aprendi segurar!
Há sangramentos que não se pode estancar,
e transbordos que nos convidam a criar!

E eu descubro, nesse devaneio sem par,
a lição que a vida me faz valer,
que viver me inspira a escrever,
e escrever me inspira a viver.

GUI RODRIGUES