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29 de set. de 2014

HOJE EU VOU ORAR

Nem sei se Deus existe,
às vezes parece que não...
Parece que dorme,
que foge,
se esconde.
Parece que perdeu o controle,
que não sabe o que fazer,
que é impotente.
Que está morto, que nunca viveu.
Não sei se tem Deus.
Não deve ter Deus.
Mas vou orar.
Não está tudo bem.
Vou fazê-lo
pelo trabalhador na rua,
que tem família pra cuidar,
se arriscando todos os dias,
morrendo por nada.
Pelo trabalhador
que vive sobrevivendo
uma vida sem retorno.
E pelo policial na rua,
que se arrisca todos os dias,
morrendo por nada,
com família pra cuidar,
matando sem puxar o gatilho.
Pelo policial
que vive sobrevivendo
uma vida sem retorno.
Pelos tantos homens
sem nome, sem sorte, sem nada.
De quem é a culpa?
Por incrível que pareça
acho que isso agora é o de menos.
Tenha às vezes a impressão
de que o maior despreparado para o cargo
é Deus.
Mas nem sei se tem Deus,
nem deve ter Deus.
Não custa tentar.
Hoje vou orar
para as paredes
no meu coração,
porque chorar
já tem muita gente fazendo.
GUI RODRIGUES

O PALHAÇO DO METRÔ

   


          Céu limpo e azul. Um dia quente fazendo revolução diante dos demais dias frios daquela semana.          
          O sol vinha banhar com sua luz a pele das pessoas absortas nas delícias daquele domingo sereno e agradável.
        Pusemo-nos, eu e um companheiro, dentro do vagão do metrô, enquanto conversávamos assuntos banais. Rumávamos ao centro da cidade, pois lá haveria um evento ao qual meu amigo encabeçava. É engraçado que nos meios de transporte vemos pessoas dos mais variados tipos: algumas mais extravagantes, com cabelos de todos os modos, roupas, brincos, tatuagens; outras bem discretas, uma roupinha básica e um cabelo normalzinho já lhes basta; mas todas em suas plenas singularidades.
      "Próxima estação...". Aquela voz automática indicava a estação seguinte e qual o lado que deveriam desembarcar os usuários que desejassem descer. Até aí normal; o assunto seguia, pessoas entravam e saíam, e nós aguardávamos nossa vez de desembarcar.
       Foi quando pôs-se no vagão um rapaz: alto, forte, muito forte, com uns braços largos como minha cintura, uma camiseta com as linhas quase rasgando por causa daquele peito demasiado musculoso, ombros largos, fazendo sintonia com o queixo exibicionista da masculinidade; enfim, um verdadeiro Hércules, com seus quase 1,90 de altura e uma idade que orbitava os trinta. Com o sobrolho enrugado, exibia tanto expressão de austeridade quanto orgulho de seu físico intimidador. Um valentão bem estereotipado, daqueles que se vê em filmes americanos.
        Batíamos ainda um papo, eu e meu companheiro, e embora percebêssemos que a celebridade do Olimpo, com sua feição de homem mal, encarava a todas as pessoas – distratando-as com o olhar, buscando amedrontá-las e às vezes conseguindo –, tentamos nos concentrar em nosso assunto, afinal há muitos boçais por aí.
        Levantou-se uma senhora, e o Hércules, com todo o seu tamanho, limitou-se a fitá-la quando ela lhe disse, baixinho e educadamente, "com licença, meu filho", pois era nesta estação que precisava descer. De braços cruzados, o animal exibia seus bíceps e antebraços visivelmente forçados para parecerem ainda maiores, forçando também a mandíbula, ornamentando seu rosto de ogro, enquanto a senhora se esforçava para driblar aqueles quase dois metros de pura imbecilidade. Não fosse a simpatia e a baixa estatura da senhora, acompanhadas de um corpo frágil, bem magrinho, decerto ela não desceria. Nossa celebridade, com olhar maldoso, ainda fitava da cabeça aos pés a boa senhora que já subia as escadas da estação e talvez já tivesse esquecido do ocorrido. Mas a besta musculosa não: ele era mal, bem mal, e por isso devia mostrar ao mundo, o quanto pudesse, a sua cara feia, desenhando em seu rosto expressões de um cão sarnento e raivoso, e doando-as às pessoas que cruzassem seu caminho de fera animalesca.
      Pois bem, tentamos ainda ignorar aquilo que se encontrava em nosso vagão, mas ao passo que aquela figura do ridículo olhava feio para todos ali – juro que tentei, suguei até o último das minhas energias em esforços fracassados – foi difícil conter: nascia fervilhando um riso do mais recôndito da minha alma, um riso que subiu depressa e me escapou no formato das mais sinceras gargalhadas. As pessoas não entenderam, pois é óbvio que um gargalhar súbito como o que me fugira, chamara a atenção dos usuários ali e principalmente do meu companheiro. Eu ria mesmo, com gosto, e não somente ria como também apontava a causa de tanta riso: a cara feia do Hércules contemporâneo. Meu amigo foi o primeiro contagiado, e lhe escapou também, tão rápido, o mais intenso gargalhar. O paspalho valentão, musculoso como um cavalo, enuveceu mais ainda o rosto, lançando a nós com os olhos, raios que provavelmente seu papai Zeus o ensinara a lançar. Seu olhar transbordava raiva, e em sua cabeça ele provavelmente se perguntava, indignado, como estes rapazes ousavam zombar dele, logo dele, uma figura tão temida, capaz de amedrontar até o mais intrépido dos homens. Não importava: quanto mais cara feia, maior o desejo de rir. No entanto, mesclada à raiva, cada vez mais seu rosto enorme demonstrava um vermelhidão, tingindo as maçãs da bochecha com um vermelho tão vermelho quanto o vermelho pode ser, enrubescendo levemente e não mais conseguindo se concentrar em sua raiva. Então o boçal encontrou o ápice da sua vergonha, pois todos no vagão seguiram nosso exemplo, entregando-se paulatinamente ao devaneio do riso a que nos submetíamos eu e meu amigo; começou com risadinhas baixas, tímidas, e logo todo o vagão se transformou numa orquestra, num coral de risos, às vezes uníssonos, às vezes desafinado, uma vez que toda a gente, com uma mão na barriga e a outra apontando o rosto do Hércules, riam como pessoas insanas, riam tanto que não continham o peso do próprio corpo, perdendo a força, indo, autômatos, deitar no chão; rolavam, enquanto lágrimas de riso inundavam seus rostos tão contentes por terem um objeto que os fizesse rir como nunca antes riram. O bobo da corte, naquele momento, creio, tendo um revólver, explodiria seus próprios miolos, uma vez que nada seria mais terrível do que mais um segundo naquele vagão atormentador onde todos riam dele sem piedade.
      Agnóstico que sou, creio às vezes em brincadeiras do destino, e este, zombeteiro assumido que não perde a chance de troçar quando tem oportunidade, também foi contagiado: mandou-nos diretamente do Paraíso uma falha no trem à frente, atrasando a chegada da próxima estação, na qual, sendo ela ou não seu destino inicial, nosso palhacinho desembarcaria, tamanha a vergonha que o acometia. Seu desespero se manifestava em cada célula daqueles músculos imensos, o rosto de menino mal de outrora desaparecera, dando espaço agora a uma expressão de "estou implorando, parem!", com os olhos substituindo os raios que lançara por tempestade de lágrimas . Mas nós não parávamos, que nos importava o desalento dele? Ríamos mesmo daquele grosseirão, e com vontade, eu rolava no chão, socando minha própria barriga tentando aliviar o diafragma enrijecido que queimava devido meu profundo gargalhar. A besta caiu de joelhos, tremelicando-se por inteiro, derramando lágrimas por motivos tão diferentes dos nossos. Escondia com as mãos o rosto, desejava sumir, ser abduzido, teletransportado, morrer.
      Engatinhou, e agora quadrúpede, fez jus à aparência, tentando desviar dos indicadores apontados em seu rosto lacrimoso. Fugia e berrava como um porco no abate, mas seus gritos eram fracos diante de tanto riso, e ninguém escutava nada, apenas riam daquele comediante tão hábil e talentoso em sua arte de fazer rir. Chegou sufocando até o fim do vagão, e, encolhido no canto, tapou os ouvidos com uma força que quase esmagou a própria cabeça: talvez fosse esse seu desejo. Parecia uma criaturinha impotente, pequenina, uma formiguinha indefesa diante da iminência da morte transfigurada em sola de sapato.
      Todos se aproximaram do brutamontes para rir mais forte e mais de perto. Todos queriam ver o quanto mais próximo pudessem o humilhado comediante, que trazia em sua face as cores da piada mais engraçada do infinito universo.
      Mas, depois de tanto riso – creio que todos ali nunca riram nem viriam a rir novamente como riram naquele domingo ensolarado –, a besta passou a deixar de ser besta, e, já se resignando, secou as lágrimas da vergonha, e ainda parcialmente lacrimoso, um sorriso começou a nascer em seus lábios. Como conosco ocorrera, gradativamente, o espírito risonho fermentava em seu interior. Não mais escondia o rosto, fitava-nos agora com outro olhar, o olhar de alguém que caíra em si. Tão mais cedo quanto esperávamos, o homem passou a rir como ríamos dele, dizendo com voz entrecortada pela gargalhada: "Ora, aonde eu estava com a cabeça?! Tolo que fui!", e desabava em risadas sinceras. Nós ríamos ainda, ríamos todos juntos, agora, o mais contagioso dos risos, e quando parecíamos ter contido o riso numa pausa, contemplávamos uns aos outros, rindo novamente e com mais força tudo o quanto antes havíamos rido; os olhos umedecidos ferviam. O rapaz, agora curado, ainda gargalhando, pôs-se a levantar, e nós pegamos em seu braço e o ajudamos a fazê-lo. Ficamos ainda com aquele riso por muito tempo entalado na garganta, pois era muita gargalhada para sair de uma só vez; algumas, inclusive, escapavam guturais.
       O trem voltara a andar, todos se levantaram, secaram suas lágrimas, e voltaram à Terra. Algumas risadinhas ainda estavam flutuando vivas no ar, e o homem já suspirava sereno, parecia leve, bem mais leve; também parecia agora mais gente do que animal. Chegando na próxima estação, ele respirou fundo, fitou-nos a todos, dessa vez ternamente, e, acenando, da sua boca escapou: "Obrigado, pessoal, tenham um bom dia". Sorrimos para ele, cada um respondeu a sua maneira, mas o que todos queriam lhe dizer era: "Fique em paz, companheiro. Tenha um bom dia".
   
  Ele foi embora, e, recompostos do riso, nós ficamos, eu e meu amigo, aguardando nossa vez de desembarcar.


GUI RODRIGUES

28 de set. de 2014

MENINOS E MOLEQUES


Sou um menino que não aprendeu a amar,
Por isso, vaga como zumbi dos sentimentos,
Sou um menino que não viveu
Passou e a vida não viu,
Esperança de óculos,
Lembrança muda sem nascer no coração,
Poeta sem destino, perigoso artífice do nada
Senhor necessário das solidões.

"Senhor eu não sei rezar!"

Nem por mim, nem pelos outros,
Choro uma lágrima fria, desesperançada
Comprida..., cumprida a sós como as pedras
Que rolam sós pelos caminhos , perdidos...
Nas romarias das latas cegas nas cabeças
Das Marias Madalenas nas fontes dos desejos
Ensejos de rimas e versos sem destinos-desatinos.

"Senhor eu não sei rezar!"

As aparências enganam, nas aparências
As poeiras nem sempre são desérticas,
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira,
Na neve das entranhas, estranhas formas do nada
Nunca percebi o fogo do outono brilhar no verão da primavera.
Mesmo tendo carregado todo o mel do meu corpo,
Mesmo tendo perdido meu tempo com você, solidão
Mesmo tendo, um dia, lavado o chão com lágrimas,
Não tenho olhos para te ver, amiga distância
Não consigo te abraçar, amigo afastamento
Sou o longe do corpo, do meu sonho, da fascinação.

"Senhor eu não sei rezar!"

Não sei ser poeta, poesia.
Não sei ser menino do amor,
Não lavei o travesseiro para não perder teu cheiro perdigueiro
No mar não sei nadar, mas estou sem companhia.
Não tenho a vida completa
Não sou Cecília, não sei ser poeta
Não soube fingir, nem sentir as dores das pessoas

Não soube fazer da vida um encontro
Não conheço o desencontro, portanto, da vida.
Não conheço a cor da saudade
Porque na verdade nunca tive a certeza do céu azul e a folha verde.
Sou a poeira das estradas das cidadezinhas quaisquer
Como Drummond, bebo Vinícius, fumo Bandeira e cheiro Chico.


®Sérgio Souza

27 de set. de 2014

RENÚNCIA INDIGESTA!



Chega, hoje estou renunciando a tudo que um dia acreditei, chega! Fim á hipocrisia dos poderosos, fim ao deleite da clerezia, basta aos desmandos da burguesia, estou farto do lirismo namorador dos gabinetes do planalto e do negro da Casa Branca, não vou mais compactuar com os senhores donos das verdades da fé, nem darei fé as justas injustiças dos justos, não vou reconhecer o céus nem darei louas aos infernos, nem o céu nem ao mar, muito embora queira me cobrir com teu manto mais azul e me embalar no verde azulado das águas dos oceanos que afogaram minhas esperanças perdidas no infinito firmamento das minhas credulidades.
Basta para a poesia falsa que me namorou, deitou comigo e não me satisfez, basta para você paixão nova, embora seja vontade do inédito, porque nasceu comprometida com as falácias das sociedade, basta para você paixão velha, eternizada nas letras das canções não entoadas nas madrugadas frias e desprezada nas noites de verão, não verão mais minhas lágrimas por vocês, pois hoje estou renunciando a tudo e a todos que um dia me aplaudiram nos discursos das consciências, adeus ciência que um dia me disse homem, mas homens não se forjam em tubos de ensaio, não se inseminam as pessoas longe da ideologia, a qual me cortejou, porém feito mulher de esquina me abandonou pela propina mas gorda, parei com o coração que entreguei á prosa do dia a dia, enfartado que está das indiosicrasias que a humanidade criou, enfartado que está do amor verdadeiro que entreguei e não recebi, de você que me fez ambíguo diante das regras sociais, e hoje nem sei da minha carteira de motorista, não quero perguntas e abomino as respostas forjadas e iguais dos balcões de anúncios dos jornais ou telas de televisão, cansei de ver o mundo pela fresta de janela que me permitiram, cansei de apanhar na avenida Paulista ou de ser chacota nos bistrôs de Paris, a vontade é de explodir torres, as torres da minhas verdades inócuas, que tentei te explicar, mas você esteve preocupados com os corredores dos shopping´s.
Hoje renuncio ao puro sentimento que Bandeira cantou e roubo sua passagem para Pasárgada, porque lá nem passarei perto rei, nem quero ninguém na cama que escolherei, não passarei a vida a limpo, Drummond, porque nada tenho, a mais, para dizer, não escolherei heróis porque já não me pareço com os nossos pais, cansei!
Renuncio a você, meu amor, porque será difícil viver na certeza da perda, amo, mas nego; renuncio a você, ódio diário, porque perdi as forças para lutar, chega! Não lançarei impropérios, como tantos, porque não s quero ver mais, renuncio com clareza de ideias e falência de ideais, não quero mais compactuar com as mortes de África, nem com os terremotos do Haiti, não serei avalista dos descalabros de Alá, nem recolherei o sangue na Cruz, nem entoarei mantras a Buda ou Krishina, só sei, que o quê sei, é que vou partir sem deixar lembranças, não quero levá-las também junto á poeira de meus sapatos, pois tudo fiz para amar, e você resistiu, tudo fiz para mudar, e você resistiu, tudo fiz para esclarecer, e você resistiu, cansei! Hoje vou pela porta dos fundos da eternidade, pois tenho vergonha de sair pela porta pela qual cheguei, porque não me disseram nada, me negaram tudo, e passei meu tempo longe dos banquete dos poderosos, pois que morram da diarreia do que os empanturrou sempre, o poder e o dinheiro.
Adeus último para você, antes que me desvaneça na fumaça do último cigarro, levando as tripas do último rei amarradas á corda que enforcou o último representante dos céus.
P.S.: Não deixo testamento, só vazio para você guardar o meu esquecimento, também parto nu, conforme cheguei, pois as roupas só me serviram para me esconder de mim mesmo!

SÉRGIO SOUZA

Jornadas

Conhecedor que sou de mim
nunca deixei de me dizer
o que desconheço na minha alma.
As novidades interiores
guardadas no canto desta sala
me apresentam novos sabores.
Devoro-os ávido,
engulo-os rápido,
e por fim a garganta me entala.
Solto em meu firmamento,
firmo-me ao meu momento;
prendo-me à liberdade
que me escraviza dentro de mim.
Tenho saudade do que fui,
mas tenho vontade do devir.
Sou o agora,
sou diferente
do que fui outrora.
A minha hora
não é a de antigamente.
É que o que se sente
não se demora,
e tão de repente
vai-se embora.
E eu fico na saudade de mim,
com vontade de mim,
vivendo em alguém que penso ser.
Pulo o muro,
deslizo,
me seguro,
não sei aonde piso,
caminho,
está tudo escuro.
Sozinho
sinto o perfume puro
da terra fértil e molhada
onde nova semente será plantada.
Um dia após o outro,
e eu já não sou o mesmo.
Navego pelo mar,
viajo pelo ar,
fecho os olhos
e passeio pelo meu lar.
Ardo por dentro,
mas estou quieto,
chego a algum lugar
com o coração no centro;
perdi-me: hei eu de voltar?
Mergulho breu a dentro,
acendo-me de minha luz:
é na parte mais escura que eu entro,
é o desconhecido que me seduz.
Nunca desisti de me encontrar,
nunca desisti de me perder:
perco-me para me achar,
acho-me para me ser.

GUI RODRIGUES

25 de set. de 2014

NO DIVÃ DO ANALISTA


Irmão mata irmão num fratricídio generalizado, eu nunca pensei que seria assim, irmão roubando irmão, eu nunca imaginei isso, a ambição destruindo nações, a fome como herança, o erro é o certo e o acerto está errado, a violência é a regra e a regra é violenta, sem caminho, caminham hordas, legiões se perdem no caminho que é só caminhar, se engasgam com palavras fáceis, mentem para dizer verdades, mulheres e homens em mistura heterogênea, as serras mudam de lugar e as florestas deixam seus espaços, não ouso imaginar futuro, se o passado já está comprometido e o presente é ausente de sentimentos, se os tanques de guerra rugem mais forte que o sibilar dos ventos da paz, ah! eu não podia imaginar que o dia da criação fosse o dia da sentença de morte, são os meus filhos que já não me obedecem, as águas que já não correm para o mar e nem o mar é a síntese dos encontros, são montanhas em desalinho, são passarinhos que já não voam, não há o canto dos sabiás, nem o baile dos colibris, ah! no dia da criação não havia a fumaça que turva a vista e mata a vida como bem maior, ah! a filosofia, prima irmã da poesia da existência é moribunda, todo consciente existe, mas falta a prática da consciência, tudo parece não ter mais nexo, errou quem criou o trono da criação, o mundo, o universo, as estrelas, o sol e a lua, a cama, a piedade nua, errou! Errou a lógica, a mágica da ilusão, da esperteza, se perdeu na construção, errou na argamassa, tudo aconteceu quando num instante de distração abaixei-me para amarrar o cadarço do sapato, hoje estou aqui senhor analista, cheio da culpa da vida, do peso da cruz e do remorso do tempo que foi cúmplice e vilão e todos acharam que as regras estavam erradas e mudaram sem permissão e quem foi piedoso, hoje dispensa a piedade. Ah! Esqueci-me de dizer meu nome: DEUS!


SÉRGIO SOUZA

CARPE DIEM


Eu acabei dormindo. Depois de tudo quem me acordou foi a chuva; já era quase noite. As lembranças transformaram o passado em presente como reprises, e eu levantei para ver a água que o céu chorava. Eu quis também chorar, depois desisti: hoje não é dia de chorar. O gosto da tarde ainda estava na minha boca, meu paladar mantivera esse sabor muito bem conservado, e minha mente ainda estava fresca. Por alguns instantes esqueci-me da tristeza natural hospedada em mim. Ainda bem que às vezes chove, um arco-íris não se formaria apenas com raios solares.
Meus suspiros lamuriosos gradativamente se intensificavam, embora a paz espiritual ainda estivesse descansando em seu trono. A água ia molhando tudo, a rua se ensopava, e meu coração estava calmo. Eu ouvia, sim, o costumeiro grito caótico a desesperar-se dentro de mim, mas tão de longe ele se esperneava dessa vez... À distância à qual ele se encontrava era tamanha a ponto de me encorajar a ignorá-lo. Ele quis me incomodar, mas hoje eu soube tapar os ouvidos. Sei que brevemente, como sempre, cairei em suas armadilhas, sendo capturado pelo meu gênio faminto, devorador de almas: só que não esta noite. O porvir da lua não deixará que o céu se apague quando o sol se retirar para os seus aposentos. Ainda há de brilhar um formoso farol no firmamento, tal como ainda uma luz há de brilhar em meu interior depois do crepúsculo. Hoje, dentro de mim, tudo será silêncio, e os fantasmas se aquietarão no escuro, acometidos pela sonolência que causa o cansaço e as frustrações. Não vencerei a guerra, reconheço minha impotência – e isto é ser verdadeiramente intrépido –, porém nesta madrugada, pelo menos uma vez, sairei vitorioso da batalha, e se eu quiser brindar com o melhor dos vinhos a minha vitória, fá-lo-ei merecidamente. A inquietação vai para a camisa-de-força, e que berre! Ela está aqui, e eu acabo de esmurrá-la. Amordaço-a, sufoco-a, seus protestos apenas encontram malogro. Vou trancafiá-la na mesma cela que ela me trancafia, e ao menos hoje tentarei não me atormentar. Vejo seu sangue se misturar com o meu, vejo abertas minhas feridas. Não me importo, anestesiado nada dói.
Eu sempre pensei que meu maior escapismo fosse a escrita: enganei-me. Escrever é escrever-me, me traz para próximo de mim, ao passo que estar com amigos me distrai das minhas dores, e não pensando nelas esqueço-as completamente, ainda que por mínimos – mas intensos como a eternidade – momentos; é fugir para algum lugar seguro, onde a chuva depois do sono sereno desperte com beijos suaves, cantando sucintamente seus suspiros sossegados; é estar na tempestade acompanhado, em vastos campos verdes abaixo do céu nublado. É, sem dúvida, o momento de silêncio das faces escandalosas do espírito.

Algumas pessoas me fazem tão feliz que com elas eu me esqueço de ser triste. Meu desalento cai em sono profundo toda vez que um amigo de mim se aproxima. Algumas pessoas, mesmo indo embora, ainda ficam.

GUI RODRIGUES