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28 de jan. de 2015

Senhora das Cruzes


Chora hoje ásias e áfricas
Como choraram ontem as américas
Choram os de pés no chão
Umidecendo o ontem e regando o amanhã.
Se tens fome, rime
Se tens fé, arribe
Se tens estrada, caminhe
Se tens coração, chore
Se tens mãos, tome
E vai em busca do porvir
Pois sua redenção
Está por vir.
Chora o ontem, como chora o hoje
Na certeza do choro do amanhã
Áfricas, ásias e américas
Seus filhos são renegados da esperança
Abandonados ainda criança
Vítimas da fome, bala e vício
Praticantes da dor por ofício.


SÉRGIO SOUZA

Chão de Letras


Na luz do dia a exposição é emoção
Sem rima a noite é poesia
Uma conversa livre, horas nuas
Passos de letras caminham na rua
Sonhos e realidades, minhas, suas
Numa avenida de cor e chuva
Suspiros de vida, encontro e prazer
Desencontros, variedades e vaidades
Um ponto de asfalto na cidade
Misto multicor de verdades e letras
Letras pavimentam o caminho
No desalinho das ideias e gestos
Chutando letras, colhendo palavras
Pintando imagens, fotografias
Trançando ideias, noites e dias
Trocando ilusões, cruzando olhares
Misturando tristezas, doando pesares
Numa exposição interna de valores
Na livraria de autores e cafés.

SÉRGIO SOUZA

15 de dez. de 2014

Recado ao Senhor da Rua das Violetas/Resposta ao Senhor da Rua Cidade de Castro


        Deveria neste momento estar escrevendo um ensaio, mas prefiro deixa-lo pela metade, na espera. Caro senhor das Violetas, neste sábado chuvoso, com a vontade de escrever e ao mesmo tempo um gosto travoso de preguiça, uma televisão a papagaiar solitária, a janela aberta e uma cachorrinha sempre sorridente e solicita, parece um cenário de horror e solidão, mas não é, esgueirei-me pela estante para encontrar companhia aprazível e por lá encontrei um punhado de papéis impressos a tagarelar no seu silêncio de mensagem cifrada. Tem uma hora que o tempo acaba na sua infinitude, diz um filósofo alemão qualquer, ou silêncio é a gente mesmo demais, numa filosofia que vem de Cordisburgo.
       Mas nada há de encanto nestes pensamentos, muito mais é caminhar pela chuva fina pensando no ser, no sentir e no existir, mas falta-me coragem para tanto, a friagem me faz covarde em deixar o sofá, porém de induz à coragem de pensar naquele texto que ensaio o ensaio e não escrevo.
A televisão mostra um filme água com açúcar, daqueles que se acostumou a ver nas tardes modorrentas dos sábados ou domingos, durante a semana não ouso dizer, mas algo me chama a atenção, quando o personagem central declara ser uma moeda, que foi cortada de uma chapa, cunhada e chanfrada, o valor... bem este pouco importa, já que o importante é ser moeda. Fiquei com isto aqui na cabeça, que somos como moedas, feitas, marcadas e adestradas, se me permite a comparação estapafúrdia, senhor da rua das violetas, passadas de mão em mão e com valor previamente estabelecido, valor nominal, pois que valor dá-se a uma moeda, senão o recebido, além de ser considerada troco. Uma vez baleado na guerra ele diz que a moeda agora apresenta dois furos, logo perdeu o valor.
       Se por um lado isto se consuma, por outro ganhou valor histórico, mas meu caro senhor, valor histórico é mera moeda de aposentado por uma invalidez qualquer que as notas, muito mais bem vistas, de valores maiores e peso ínfimo acaba por impor à nefanda circulação. 
Quanta bobagem, dirá o senhor, e eu hei de reconhecer sua veracidade. Ora! Encomoda-lo com um discurso tão insustentável como a leveza do ser.
        Verdade é que parece que as tais personagens tiraram folga neste sábado de dezembro, nenhuma quer conversar comigo, a não ser para reclamar disto ou daquilo e ai fico eu a vagar minha indigência literária pelas linhas obscuras do papel, me esgueirando por entre pontos e vírgulas na insana tentativa de quer dizer. 
       Aliás, saber dizer é uma arte, já disse alguém em tempos idos e vividos, coisa que não chego nem perto nesta barafunda de ideias jogadas, mas uma coisa tenho a lucidez necessária para explanar, o quanto é difícil querer entender o mundo em que sobrevivemos, seja pelas pessoas em si ou seja por seus atos em "ré"; sim, não errei no duplo sentido que grafei, pois quanto mais para frente se anda, menos sinto a evolução, seremos seres no futuro como ou pior, em termos de evolução mental, que os senhores das cavernas, com a bizarra moda de um eletrônico qualquer na mão, e se me fosse, ainda, permitido imprimir uma viagem surrealista, gostaria de ver este arrogante HOMO SAPIENS SAPIENS em confronto direto com aqueles; o SAPIENS a arrulhar que chegou aos confins do universo e aquele, do alto da sua simplicidade carvérnica, olhando fundo e seguro 
em seus olhos e dizendo: "eu inventei a roda".
     O homem de tempos muito passado não teve está ideia de posteridade histórica, pois senão teria patenteado seu invento, e aí babau relativismo.
Perdoe este pobre homem de letras, pois afinal as palavras foram para serem ditas e as minhas não cabem dentro da boca. 

Um forte abraço deste,
Senhor da rua Cidade de Castro.

SÉRGIO SOUZA



     Talvez seja uma resposta tardia, que demorou para me ocorrer. É que não me aflige agora nenhum pensamento, e este é o melhor momento para se dizer alguma coisa. Já reparou naquela sensação de procura, de busca incessante por entre as profundezas de nosso interior, com o intuito de encontrar algum objeto, algo velho que nos dê uma sensação de coisa nova, ou, como diz você, meu bom senhor da rua Cidade de Castro, Donec Mei? É interessante que os maiores tesouros guardados dentro da gente estão sempre nas partes menos acessíveis, cabe-nos, portanto, revirar-nos por completo para encontrá-lo, porque temos, sem perceber, um preciosismo tão grande com nossos pertences valiosos, que acabamos por esconde-los de nós mesmos num relicário trancado que mal sabemos o endereço.
É estranho que passei hoje o dia a ver o mundo por uma janelinha estreita. Fiquei pensando em Fernando Pessoa, na verdade ele deve ter pensado em mim, porque surgiu um certo Álvaro de Campos – o senhor como homem das letras deve conhecê-lo – e me disse que precisava escrever, então pediu emprestada minha memória e teceu nela algumas lembranças. Acho que me recordo dos seus versos:

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

    Acho que sonhar já está de bom tamanho. Que importa ser, se não houver toda a magia e o encanto do sonho, isto é, se não houver aquela espécie de natureza imaginativa que nos preenche, dando a nós, em meio aos absurdos mundanos, uma vitalidade profunda e arrebatadora, que nos fornece toda a nossa essência e cede-nos uma visão cega e atenta do que se passa do lado de fora? Os cegos me inspiram: eles veem o mundo através da sensibilidade.
    Sabe, meu caro senhor, será que um poeta imagina, quando a poesia usa seu corpo como instrumento de escrita, que de alguma forma o que ele está escrevendo pode ter sentido para alguém tão distante, seja hoje ou daqui a uma porção de anos? Digo isso porque o mundo é bem estranho...         Há pessoas que existem, mas para outras pessoas não existem, e quem já não existe mais existe para outra pessoa. Explico-me: imagine o senhor que neste exato momento alguém vaga pela Avenida Paulista, alguém que nunca vimos e nunca veremos. Imaginou? Então, para nós essa pessoa não existe, embora exista; nunca a vimos, não sabemos de sua existência e por isso não a reconhecemos. Agora, peço que imagine o bom Álvaro de Campos: ele não existe, ele um dia existiu em alguém que também já não existe mais, entretanto, para nós, ele existe mais do que quem verdadeiramente existe! Como o mundo é louco, não?
    Quando você me fala sobre a fuga das personagens que hoje não quiseram ter com a sua inspiração, penso que às vezes são os escritores que fogem das suas personagens. Sol é um claro exemplo desse abandono por parte do escritor, que, temendo a conduta dessa mulher, procurou abster-se pelo menos por um momento da história. Mas confesso que, às vezes, escrever dá-me uma boa nostalgia das brincadeiras de infância, quando eu corria de um lado para o outro, naquela típica brincadeira simples e divertida que é o pega-pega. Talvez nos ocorre algumas vezes de não sermos tão espertos e hábeis quanto a personagem, e por isso ela nos escapa.
    Neste dia chuvoso, senhor da rua Cidade de Castro, tudo está vazio, menos eu. É que aprendi a preencher o vazio de sempre com o próprio vazio. Encontro-me no vazio. O coração humano tem muito disso.
    Aqui, senhor, as violetas das ruas estão belas e molhadas, lambuzaram-se inteiras de chuva e saciaram a sede; uma nuvem inteira passou por um processo imenso somente para dar de beber a essas pequeninas perfumadas.
    Mas, caro senhor, estas são só palavras, carregadas de preguiça e com sentido apenas para quem tiver algo dentro de si, justamente por elas não terem nada a dizer. São só palavras mesmo. Entretanto, lembrando Clarice, nós sabemos de muita coisa, mais do que imaginamos saber, acontece que nos fazemos de sonsos.


Um forte abraço deste,
Senhor da Rua das Violetas.

GUI RODRIGUES

19 de nov. de 2014

ABRAÇO DE IRMÃO





Embrenha teus cabelos cor de prata
Na manhã raiada de madeixas negras
Embrenha o eco surdo por teu sorriso cor de anil
Na manhã fria de outono quente
Estende hoje a mão que ontem negaste
Chora sociedade macabra teu nefasto choro de iniquidades
Chama para dentro de si os renegados do banquete
Diz que não existem; que são visões, Ignora teus restos nus nas esquinas,
Renegue tuas meninas, diz que é ilusão.
Embrenha a luz por teus cabelos cor de prata
Na manhã raiada de madeixas negras
E ensurdeça-se com o eco que vem das ruas
Surdo e amordaçado dos esquecidos,
Daqueles que não chamaste irmão;
Que se quer passou pelos pensamentos seus
Os mendigos das consciências
Os renegados filhos de Deus.


SÉRGIO SOUZA

17 de nov. de 2014

QUEM ME DERA


Quem me dera
ter o mundo inteiro
pra poder correr.
Correr sem nunca me cansar,
correr até faltar o ar,
até não sentir mais as pernas;
sentir o sol me banhar,
sair da escuridão das cavernas
e não mais me penar
em angustiante claustrofobia,
e ser para mim a minha companhia,
e ter para mim todo o mundo, todo dia,
o dia todo.
Quem me dera
correr descalço,
pelos campos,
pela areia,
pela neve,
passear leve,
pelas nuvens,
pelo céu,
por algum lugar distante
onde todos tenham asas.
Quem me dera
tornar-me viajante,
largar o peso,
estar-me ileso,
de todas as toneladas,
de todas as palavras
que, sutil e brutalmente,
foram lapidadas.
Quem me dera
despir-me da gravidade
para flutuar,
flutuar em liberdade,
pelo universo,
disperso entre as estrelas.
Abraçar a leveza
e nunca mais soltar,
viajar a lugares
onde se possa voar,
onde o infinito seja o chão,
e o chão não exista;
onde o céu seja o lar.

Quem me dera
correr somente,
esquecer, fugir, sumir,
até não sentir mais a vida.
Apenas sentir
outra vida que não existe,
mas que pode existir.
GUI RODRIGUES

5 de nov. de 2014

COMPOSIÇÃO



Beto abre a vidraça. Ela se remexia tentando romper o trinco, pois o vento batia forte querendo entrar. O sujeito dirigiu-se a ela, e, ao abri-la, viu-se defronte a uma infinidade de majestosos detalhes naturais, e não consegue evitar que seus olhos percorram a paisagem, e suas retinas pousam um tempo por sobre os morros verdes e longínquos. Há cinza no firmamento, na verdade, ele é todo cinza, já que uma nuvem imensa cobre tudo o que nele havia de azul. Somente aonde as vistas não alcançam é que a tinta celeste ainda era azul.
Alguns galhos de trepadeiras intrujonas penetram de fininho. Os ventos já haviam invadido o quarto de Beto, e agora não mais se agitavam com furor, apenas vagavam pelo ambiente, como se inspecionassem minuciosamente o local, querendo tocar até as partes mais sombrias desse quarto. O homem, ainda encantado, deixa que a brisa sopre em seu rosto, e fecha os olhos tranquilo; está melancólico, esse senhor, mas aprazido, pois recebe o beijo divino da Mãe Natureza, que o fascina de maneira tão vertiginosa.
Atrás dele jazia um grande amigo, o seu único amigo: um piano velho e já usado centenas de vezes. Quantas não foram as noites que esse parceiro deitou a cabeça de Beto em seu colo, cantando-lhe cantigas de ninar e lhe acariciando os cabelos, para que o pianista pudesse ter alguma tranquilidade dentro de si, ainda que fosse por míseros e apressados momentos – mas sempre tão intensos. Quantas vezes ele precisou fugir e o instrumento foi o único a lhe oferecer uma porta de saída, quando nefastas e horrendas criaturas da consciência perseguiam carnicentas e famintas esse angustiado homem...
O companheiro musical o saúda, e lhe convida para uma viagem. Beto, com o espírito massageado, sorri satisfeito e agradecido para o amigo, e novamente se volta à janela, aberta para ele como o céu para outras dimensões, deixando que o caos interior se aquietasse por alguns instantes.
Eis que um canto se faz em seu coração. Uma voz sopra na sua alma uma música, como se o Universo inteiro descesse quieto para cantar nos ouvidos desse homem a composição dos céus. Parecia um chamado. Coisa difícil é conter algumas sensações estranhas e maravilhosas que às vezes, tão de repente e fugidias, atravessam como uma espada o espírito, rasgando qualquer angústia que nele pudesse residir. Havia sido isso que ocorrera com Beto, não havia modos de conter a formidável alegria que o acometeu nesse momento; ele flutuou.
Então se volta novamente esse senhor ao piano, que o fita ainda com o convite em valia. Uma força o impele, e automaticamente ele se vai sentando, sem ajeitar o sobretudo que usava e aconchegando-se confortavelmente sobre o banquinho de onde comporia a trilha sonora da viagem de sua alma.
Assim que ele começa, a um leve toque nas teclas do piano, talvez tenha se aberto o céu, pois um impulso o invadiu logo no primeiro tilintar. E dentro dele algo se remexe, algo parece querer sair, se libertar de seu coração para as profundezas daquele quarto solitário. E ele não para, segue com os dedos a tocar, dançando leves pelas teclas do piano. "Oh solidão! Você escuta essa música? Que me importa se escuta?! Componho para mim, é somente meu espírito que pretendo atingir! O céu já me ouve, e isso me basta. A imensidão do firmamento é minha mais majestosa plateia, e eu o escuto perfeitamente, ele me diz o que fazer, eu apenas obedeço aos seus sussurros, que são os comandos do meu coração. O pensamento é como a sereia do mar que cada ser humano carrega no peito, o mar severo e calmo, o mar colérico e gigante, o mar de águas frias e salgadas, que com sua imensidão oceânica esconde a sereia, mas que, mesmo com toda essa grandeza, com toda essa infinitude, não cala o seu canto, e os navegantes exploradores são atraídos, hipnotizados, e não raro se perdem quando deleitados nos prazeres dessa voz interna que convida às mais profundas profundidades do espírito humano. Escute, solidão, o cântico do meu piano, e me deixe mergulhar-me em meu espírito na companhia da donzela dos mares, que me convida à escuridão de águas remotas".
Aquilo que está dentro dele quer cada vez mais sair, e à medida que Beto faz música, essa força parece ganhar força, e tamanho, e dimensões cada vez mais impossíveis de permanecer em seu corpo, até que, fugindo de dentro de si, dançando no ar como uma sereia a nadar pelo oceano, rasgando levemente seu peito, surge uma mulher flutuante, uma bela mulher flutuante. Não que fosse uma sereia propriamente dita, sendo metade peixe metade humana, era toda humana, inclusive, no entanto balançava seu corpo pelos ares como uma perfeita sereia, e por isso tanto se assemelhava a essa criatura mítica.
Ela se coloca acima do piano, e, quase toda nua, apenas com um lençol solto a cobri-la nas partes mais baixas, abraçando desde o tornozelo ao diafragma, deixando à mostra as mamas, divaga com prazer, como quem se deleita nos sopros da música. Mais parecia um espectro, pois de tão pálida, branca, quase transparente, podia-se ver, ainda que imperfeitamente, por através dela. As linhas de sua silhueta são esfumaçadas, e desses traços um vapor se desvanecia enquanto a mulher flutuava num delírio sereno. Parecia ser impossível senti-la com as mãos.
Beto está com os olhos fora de órbita. Não crê nas mentiras que as retinas podem dizer, tem medo, paulatinamente é hipnotizado. Coça as vistas, sacode a cabeça, balançando os cabelos ondulados; engole em seco, seu coração se acelera, e não percebe que mesmo assustado suas mãos não cessam a melodia. A figura misteriosa abre os olhos, e se coloca flutuante à frente do pianista. Ela o olha bem de perto, quase o toca, seus narizes estão a menos de um milímetro um do outro, e de repente a formosa criatura fez sorrir os seus lábios, incentivando Beto a não cessar jamais a música. O homem, atônito, embora tranquilo, apenas fecha os olhos, e não evita que pelo seu rosto triste escorra uma lágrima solitária, calada, que vai despencar de sua face ao seu colo.

Então ele abaixa a cabeça, guaia, solta o espírito, enquanto, no desempenhar da triste melodia que seus dedos executavam, a sereia dos pensamentos dança por sobre o seu único amigo, o piano.

GUI RODRIGUES

I
O som do piano é a alma do pianista
Esse alquimista das notas que faz da melodia
Seu meio dia, sua meia noite
Da vida sinfonia.
Evoluí numa mágica interna de vontades
Numa mistura surda de necessidades
Faz rima com o volátil
Sonetos com o tátil.
É sonho, é mistério, é ilusão
Sem corpo, é só coração
Suavidade melódica.
Ácido e suave, amor e ódio de casaca
Luz e trevas, desejo e desprezo atado
Composição de pé quebrado.
 II
Eu piano nos versos
Enquanto tu pianas na prosa
E nesse pianarmos,
Lançamos sons e ecos no ar,
Numa vontade louca e Beethoviana
Para ensurdecer o mundo,
E bailar com a Lua senhora e vadia
Fazendo chorar a noite com saudade do dia
Revirando madrugada sozinha na cama
Enquanto vagueia os dedos cegos no teclado
Ora preto, ora preto, numa alternância frenética
Da dor e do deleite, do negar e do sentir
No divino direito de pianar.

SÉRGIO SOUZA

EU VI O TEMPO! / EU NÃO VI O TEMPO!


Eu vi o Tempo
Sozinho na areia, era um rapaz, um menino
Com a carga definitiva do destino.
Eu vi o Tempo
Pensando parado com os olhos azuis
Perpetuados no azul das águas do mar.
Eu vi o Tempo
Com as marcas da alegria e da tristeza
Marcadas em teu corpo franzino de homem-menino.
Eu vi o Tempo
Fumando poesia, e um relógio na algibeira
Era dia, talvez noite, falando na voz do vento.
Eu vi o Tempo
Olhando o infinito finito da eternidade
Lembrando um tempo que o Tempo saudade não viveu.
Eu vi o Tempo
Passando a limpo na areia da praia
O texto verdade de cada tempo.
Eu vi o Tempo
Com todas as nossas feridas marcadas em si
Como medalhões de glória ou enlevo de sentir profundo.
Eu vi o Tempo
Com todo o carma do mundo
Na fumaça do charuto num tragar bem fundo.
Eu vi o Tempo
De longa barba, velho como o Tempo
Novo como o iniciar dos tempos.
Eu vi o Tempo
Falando sozinho na brisa do ar
Conjugando o verbo criar.
Eu vi o Tempo
Na sombra do coqueiro da pedra
Sob as folhas do Baobá.
Eu vi o Tempo
Senhor do passado, compreendedor do passado,
Imaginador do futuro, sonhando na voz da maré.
Eu vi o Tempo
Inspiração,  negação e sentido
E lembrei do meu tempo com lança ferido.
Eu hoje vi o Tempo
Preso e livre no azul infinito do olhar
Caminhando sobre as águas das pedras do mar.
Eu vi o Tempo!

SERGIO SOUZA

Eu não vi o Tempo!
Não sei quando foi
que o passado virou presente,
mas sei que,
de alguma forma,
aquilo que já é ausente.
nunca se foi
Eu não vi o Tempo passar,
Como sempre, eu não vi o Tempo.
ele passou.
e bem diante dos meus olhos sensíveis
Passou pra ser passado.
Quantas nobres crueldades!
Oh! Como minhas barbas cresceram!
Tempo, eu dormi todo esse tempo?
Eu não vi o Tempo;
eu vi água, mar,
areia, pessoas, céu, lua, mas nada de Tempo.
Nada dá tempo,
e tudo parece estar fora do tempo...
pontos de interrogação.
É que os ponteiros apontam
Mas as questões às vezes se afirmam.
Eu dormia
quando meu Tempo chegou.
de perto do Baobá,
Ele veio de longe,
flutuando, como um menino,
sorriu-me e disse:
pelos ventos do destino;
chacoalhou-me,
"Vamos, que eu sou o Futuro,
– que não se vê, que somente se sente – me presenteou:
e já é tempo de transformar!".
E o Tempo o Futuro, agora,
mora no meu presente.
E tudo passa.
Mas no momento
eu não enxergo nada...

GUI RODRIGUES